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Clube Das Leituras Possíveis

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Um espaço de leituras compartilhadas, encontros e reflexões. Porque um livro nunca termina exatamente quando fechamos suas páginas.

0s da minha rua: as lembranças que continuam morando em nós

4 min read10 hours ago

Uma leitura de Ondjaki sobre infância, memória e pertencimento

Existem livros que nos levam a lugares distantes. Outros nos conduzem de volta a lugares que, de alguma maneira, continuam morando dentro de nós.

Em Os da minha rua, Ondjaki nos leva a Luanda, Angola, pelas ruas de uma infância povoada de brincadeiras, descobertas, amizades, afetos, professores e despedidas. São histórias aparentemente simples, pequenos acontecimentos do cotidiano que, pelas mãos do autor, ganham uma beleza particular. Com delicadeza, humor e uma escrita cheia de poesia, ele nos lembra que nem sempre são os grandes acontecimentos que deixam as marcas mais profundas em nossas vidas.

Uma escolha narrativa muito inteligente de Ondjaki é colocar a criança no centro da narração. É por esse olhar que conhecemos as pessoas, os lugares, as transformações e também o contexto político e histórico de Angola. A criança observa o mundo adulto, faz perguntas, cria suas próprias interpretações e, muitas vezes, não compreende inteiramente a dimensão do que acontece ao seu redor. Mas isso não significa ingenuidade ou ausência de percepção. Pelo contrário, a criança percebe muito: capta gestos, silêncios, mudanças de comportamento e sentimentos que ainda não consegue nomear. E é justamente nesse espaço entre perceber e compreender que a narrativa encontra parte de sua beleza. Enquanto o mundo adulto carrega suas contradições, a infância continua acontecendo, com suas brincadeiras, descobertas e formas tão próprias de experimentar a vida.

A infância aparece em suas alegrias, mas também nas primeiras experiências com a saudade, a perda e as despedidas. Em uma passagem, o narrador diz que os dias mágicos passam depressa, deixando marcas fundas na memória, que alguns também chamam de coração. Há algo de muito bonito nessa percepção: certas experiências duram tão pouco no tempo, mas permanecem por tanto tempo dentro de nós. A memória guarda aquilo que, muitas vezes, só conseguimos dimensionar quando já passou.

E o livro também nos lembra que a infância não acontece fora da história. As lembranças narradas por Ondjaki estão atravessadas por uma Angola marcada por transformações políticas e sociais. Referências a Agostinho Neto, à presença de trabalhadores soviéticos e ao período pós-independência aparecem entre as brincadeiras e as relações cotidianas. A história de um país também se revela nas pequenas histórias de quem vive nele.

Outro aspecto que merece atenção é a linguagem. As expressões, o vocabulário e a oralidade nos aproximam de uma cultura e de um modo particular de narrar o mundo. A leitura nos permite atravessar outras geografias, conhecer outras referências e reconhecer, ao mesmo tempo, aquilo que nos aproxima: os afetos, as relações, as descobertas e as experiências humanas.

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Há ainda uma dimensão da obra que me fez lembrar de uma leitura da época da faculdade: A Rua: espaço, tempo, sociabilidade, organizada por Graça Índias Cordeiro e Frédéric Vidal. A coletânea propõe olhar para a rua para além de sua dimensão física, compreendendo-a como espaço de encontros, convivência, relações e construção da vida coletiva.

Essa perspectiva me fez olhar com ainda mais atenção para a rua de Ondjaki. Ali, ela não é apenas o lugar onde as histórias acontecem. É onde as crianças brincam, os vizinhos se encontram, as relações se constroem e a vida cotidiana ganha sentido. A rua participa da formação de quem somos. É feita das pessoas que encontramos, das experiências que compartilhamos e das lembranças que levamos conosco.

Uma das passagens mais bonitas acontece em uma conversa entre o menino e sua avó Agnette. Ao perguntar para onde vão as lesmas, ele recebe uma resposta que guarda uma reflexão para a vida inteira: "Uma casa está em muitos lugares. É uma coisa que se encontra."

A fala da avó amplia nossa compreensão sobre pertencimento. Casa não é necessariamente um endereço ou um lugar fixo. Pode ser uma pessoa, uma lembrança, um abraço, uma rua, um encontro. Pode estar nos lugares e nas pessoas que nos acolhem e que, de alguma maneira, passam a fazer parte de quem somos.

Os da minha rua é um livro sobre crescer, lembrar, partir e pertencer. Sobre a passagem do tempo e a permanência dos afetos. Uma leitura delicada, que encontra poesia nas coisas cotidianas e nos mostra que algumas das histórias mais importantes da nossa vida são justamente aquelas que, por muito tempo, consideramos pequenas.

Ao fechar o livro, ficam as lembranças, as pessoas e as ruas. Afinal, há lugares dos quais nunca partimos inteiramente, porque continuam abrigados dentro da gente.

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Entre páginas, lembranças e encontros, cada uma de nós encontrou um pouco da sua própria rua.

ONDJAKI. Os da minha rua. 2. ed. Rio de Janeiro: Pallas, 2021.

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