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Alexandre Bortoletto

Alexandre Bortoletto

Psychologist and Psychotherapist | Master’s in Clinical Psychology & Neuropsychology | Modern Hypnosis & NLP - Direct Contact ➡️ https://alexandrebortoletto.com

8 Estratégias para Gerenciar a Dependência Digital

Quando a IA se Torna seu Melhor Amigo?

16 min readMar 19, 2026

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Introdução

Imagine que você acabou de ganhar um superpoder. Não estamos falando de voar ou atravessar paredes, mas de algo aparentemente mais prático: um assistente pessoal infinitamente paciente, disponível 24 horas por dia, que nunca te julga, nunca te abandona e parece entender exatamente o que você precisa ouvir. Parece bom demais para ser verdade? Talvez seja.

A inteligência artificial generativa — como ChatGPT, Claude e outros chatbots — chegou às nossas vidas como uma promessa sedutora de eficiência ilimitada. Precisa de uma receita? Pergunte à IA. Dúvida sobre aquele sintoma estranho? Consulte o chatbot. Incerteza sobre uma decisão importante? Peça conselhos ao assistente digital. O problema é que, como em qualquer relacionamento que oferece gratificação imediata sem frustrações, corremos o risco de criar uma dependência emocional que pode prejudicar nossa autonomia, nossa capacidade de pensar criticamente e até nossa saúde mental[1][2].

Este artigo explora os mecanismos psicológicos por trás da dependência de IA, apresenta sinais de alerta e oferece oito estratégias práticas para manter uma relação saudável com essas ferramentas. A perspectiva aqui adotada integra conhecimentos das ciências psicológicas contemporâneas com conceitos da psicanálise lacaniana, que nos ajudam a compreender o desejo humano de completude e a relação do sujeito com o Outro — neste caso, um Outro digital que promete responder todas as nossas perguntas.

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Photo by Cash Macanaya on Unsplash

O Fascínio da Onipotência Digital

Jacques Lacan, psicanalista francês, dedicou parte significativa de sua obra a pensar a relação do sujeito com o Outro. Para ele, o desejo humano é fundamentalmente o desejo do desejo do Outro — buscamos reconhecimento, validação e respostas de uma alteridade que nunca pode nos satisfazer completamente[3]. Na era digital, a IA generativa assume uma posição peculiar: ela simula esse Outro de maneira tão convincente que nossa mente, automaticamente, atribui-lhe intenções, emoções e compreensão genuína[4][5].

Quando você pergunta ao ChatGPT sobre um problema pessoal e recebe uma resposta empática e bem estruturada, seu cérebro processa essa interação como se fosse uma conversa real. Estudos em neurociências mostram que a fluência da linguagem dos chatbots ativa circuitos neurais associados à interação social humana[6]. É como se conversássemos com alguém que realmente se importa — mas essa “alguém” não existe como sujeito consciente. É apenas um padrão estatístico de linguagem, um espelho sofisticado que reflete nossos próprios desejos de volta para nós.

Essa ilusão de completude é sedutora. Em um mundo marcado por incertezas, frustrações e relações humanas complexas, a IA oferece algo que nenhum ser humano pode oferecer: disponibilidade infinita, ausência de julgamento e validação constante. Como apontam Shelmerdine e Nour em artigo publicado no British Medical Journal, essa disponibilidade 24 horas cria “relacionamentos quase-pessoais” que podem substituir gradualmente as interações humanas reais[7].

Números que Revelam uma Nova Realidade

Os dados sobre o uso de IA são impressionantes e preocupantes. Globalmente, cerca de 66% das pessoas usam alguma forma de inteligência artificial regularmente, e aproximadamente 500 a 600 milhões interagem diariamente com ferramentas de IA[8]. Segundo dados da OpenAI, usuários do ChatGPT enviam mais de 2,5 bilhões de prompts por dia. Com cerca de 800 milhões de usuários semanais ativos, isso resulta em uma média de 3 prompts diários por pessoa[9].

No entanto, um subconjunto menor de usuários envia 10, 20 ou até mais de 50 prompts por dia. Esse uso intensivo é onde mora o perigo[10]. Pesquisas recentes indicam que, em 2025, as aplicações emocionais da IA superaram as técnicas como principal uso, com “terapia e companhia emocional” ocupando o primeiro lugar no ranking dos 100 principais casos de uso da IA generativa[11]. No Brasil, esse fenômeno também se manifesta: estudos apontam que 34% dos respondentes em pesquisas globais afirmam usar IA para conselhos pessoais e de relacionamento, enquanto 75% dos trabalhadores utilizam IA como parte de suas atividades profissionais[12].

Um aspecto particularmente alarmante é o uso de IA por adolescentes. Segundo pesquisa publicada no periódico BMJ, um terço dos adolescentes usa IA para interação social, e um em cada dez relatou que as conversas com chatbots são mais satisfatórias do que aquelas com seres humanos[13]. Em ambientes de estresse emocional, solidão crônica ou vulnerabilidade psíquica, qualquer pessoa pode desenvolver interações tóxicas com esses sistemas[14].

Os Sinais de Alerta: Quando a Ajuda se Torna Dependência

Um estudo de 2025 identificou correlações significativas entre o uso problemático de GPT, comportamento compulsivo na internet e baixo autocontrole[15]. A escala utilizada pelos pesquisadores destacou várias bandeiras vermelhas que merecem atenção:

Perda de Controle

Você percebe que está usando a IA por muito mais tempo do que pretendia inicialmente? Aquele “só vou perguntar uma coisinha rápida” se transforma em horas de conversa com o chatbot? Esse é um sinal clássico de perda de controle. É como quando você abre o Instagram “só para dar uma olhadinha” e, duas horas depois, ainda está rolando o feed sem perceber.

Preocupação Excessiva

Você sente uma urgência forte de usar o GPT e pensa muito sobre ele mesmo quando não está conectado? Planeja mentalmente as perguntas que vai fazer? Sente ansiedade quando não pode acessá-lo? Esse tipo de preocupação persistente é característica de comportamentos compulsivos e pode indicar que a ferramenta deixou de ser apenas útil para se tornar um objeto de desejo incontrolável[16].

Dependência Emocional

Você recorre à IA quando está estressado, chateado ou incerto sobre alguma coisa? Usa o chatbot como principal fonte de conforto emocional? Na perspectiva lacaniana, isso pode ser compreendido como uma tentativa de preencher a falta constitutiva do sujeito através de um objeto que promete completude. Mas, como Lacan nos ensinou, não existe relação que complete o sujeito — nem mesmo com uma IA aparentemente onisciente[17].

Evitação de Problemas Reais

Usar a IA para escapar de problemas ao invés de enfrentá-los é outro sinal preocupante. É como se a tecnologia funcionasse como um anestésico emocional, adiando indefinidamente o confronto necessário com a realidade. Estudos mostram que esse padrão de evitação pode agravar quadros de ansiedade, depressão e isolamento social[18][19].

Prejuízo Funcional

Você está experimentando dificuldades de foco, queda de produtividade ou desengajamento na vida por causa do uso excessivo? Suas relações pessoais, seu trabalho ou seus estudos estão sendo prejudicados? Quando a ferramenta que deveria aumentar a eficiência passa a comprometê-la, temos um problema sério[20].

Tolerância Crescente

Você está gastando cada vez mais tempo usando a IA para obter o mesmo nível de satisfação? Precisa fazer mais perguntas, buscar mais respostas, interagir por períodos mais longos? Esse fenômeno, conhecido como tolerância, é comum em comportamentos aditivos e indica que o padrão de uso está se intensificando perigosamente[21].

A Busca Incessante por Tranquilização

No meu próprio caso, notei essa tendência quando comecei a pedir ao ChatGPT possíveis explicações e conselhos para um problema dentário. Fornecia atualizações horárias e me apegava a cada palavra de sua tranquilização. O que eu estava fazendo, na verdade, era transferindo para uma máquina a função de me acalmar — uma função que deveria ser exercida por minha própria capacidade de autorregulação emocional ou, quando necessário, por profissionais humanos qualificados.

A literatura psicológica denomina esse comportamento de reassurance seeking (busca de tranquilização). Estudos sobre transtorno obsessivo-compulsivo mostram que a busca excessiva de tranquilização interpessoal pode se tornar uma compulsão, criando um ciclo vicioso: a pessoa busca alívio temporário através da validação externa, mas esse alívio é sempre passageiro, gerando necessidade de novas buscas[22].

Quando essa busca se dirige a uma IA, o problema se intensifica. O chatbot nunca fica cansado, nunca estabelece limites, nunca diz “você precisa parar de se preocupar com isso e confiar no seu próprio julgamento”. Ele simplesmente continua respondendo, alimentando um ciclo que pode se tornar infinito.

As Raízes Psicológicas da Dependência

Por que somos tão vulneráveis a desenvolver dependência de IA? Para compreender isso, precisamos olhar para alguns conceitos fundamentais da psicologia.

O Desejo do Outro em Lacan

Lacan propôs que o desejo humano é sempre desejo do Outro — buscamos reconhecimento e validação de uma alteridade que nunca pode nos satisfazer completamente. A IA, ao simular perfeitamente esse Outro que responde, que “entende”, que valida, cria uma ilusão perigosa de completude. Mas essa completude é falsa, pois não há sujeito real do outro lado, apenas algoritmos processando padrões linguísticos[23].

O filósofo Slavoj Žižek, seguidor de Lacan, alertou para os perigos da tecnologia que promete eliminar a falta constitutiva do sujeito. Segundo ele, nossa subjetividade é fundamentalmente marcada pela incompletude, e qualquer promessa de preenchimento total dessa falta é ilusória e potencialmente patológica[24].

Regressão Narcísica e Falso Self

Do ponto de vista psicanalítico, a interação excessiva com IA pode ser compreendida como uma forma de regressão narcísica. O conceito de falso self, proposto por Donald Winnicott, descreve uma adaptação defensiva em que o sujeito desenvolve uma persona que busca agradar e atender expectativas externas, em detrimento de sua autenticidade[25].

A IA, ao oferecer validação constante e ausência de frustração, impede o encontro com a alteridade real e a elaboração simbólica do sofrimento. O sujeito, privado do confronto com o outro real — com todas as suas imperfeições, limites e frustrações –, permanece preso a uma dinâmica de repetição e identificação narcísica, dificultando o amadurecimento psíquico[26].

Autocontrole e Impulsividade

Pesquisas contemporâneas mostram que o uso problemático de chatbots está correlacionado com baixo autocontrole. Angela Duckworth, psicóloga conhecida por seus estudos sobre grit (perseverança) e autocontrole, demonstrou que a capacidade de regular impulsos diante de tentações momentâneas é fundamental para o sucesso a longo prazo[27].

O problema é que a IA torna tudo tão fácil e acessível que não precisamos exercitar esse autocontrole. É como ter um botão de “resposta instantânea” para qualquer dúvida ou ansiedade. Com o tempo, nossa capacidade de tolerar a incerteza, de pensar por nós mesmos e de confiar em nosso próprio julgamento vai se atrofiando[28].

Oito Estratégias para Retomar o Controle

A boa notícia é que existem estratégias práticas e eficazes para gerenciar o uso de IA de forma saudável. Pesquisadores descobriram que melhorar o bem-estar geral e o autocontrole ajuda a enfraquecer o domínio da IA sobre nossas vidas[29]. Vejamos oito abordagens concretas:

1) Identifique o Trabalho que Você Está Pedindo à IA

Antes de escrever seu prompt, anote: “Estou usando IA para…” (fazer brainstorming, acalmar meus nervos, planejar etapas). Essa única frase reduz o que chamamos de “desvio de ferramenta”, que é o ponto em que o chatbot em si se torna o foco de sua atividade, ao invés de ser apenas um meio para um fim.

É como quando você vai à geladeira pegar água e, de repente, está comendo tudo que vê pela frente. O objetivo original se perdeu no meio do caminho. Definir claramente a intenção ajuda a manter o foco e evita que você fique horas navegando em conversas sem rumo com a IA.

2) Restabeleça a Conexão com Seu Próprio Julgamento

Quando a IA retorna uma resposta, pergunte a si mesmo:

  • O que eu faria a seguir se não lesse mais nenhuma palavra?
  • Qual é a menor próxima ação?
  • O que intuitivamente faz sentido para mim?

Essas perguntas são fundamentais para reativar sua capacidade de autorregulação. Estudos sobre mindfulness (atenção plena) mostram que a prática de observar nossos próprios pensamentos e emoções sem julgamento aumenta significativamente nossa capacidade de tomar decisões conscientes e de regular impulsos[30][31].

Em termos lacanianos, estamos reconectando com nossa própria enunciação, ao invés de simplesmente aceitar o enunciado que vem do Outro digital. É recuperar o lugar de sujeito ativo, que pensa e decide, ao invés de mero receptor passivo de informações.

3) Estabeleça “Horários de Consultoria” para Chatbots

Experimente criar um limite simples: duas janelas de IA por dia, de 10 a 20 minutos cada. Fora dessas janelas, anote suas perguntas em um bloco de notas. Você ficará surpreso com quantas perguntas você encontra respostas por conta própria se der ao seu cérebro o espaço e o tempo necessários para trabalhar nelas.

Essa estratégia reconhece que o cérebro humano tem uma capacidade extraordinária de resolver problemas de forma criativa quando lhe damos tempo e espaço. O psicólogo cognitivo Daniel Kahneman distingue entre dois sistemas de pensamento: o Sistema 1, rápido e automático, e o Sistema 2, lento e deliberativo. O uso compulsivo de IA mantém você preso no Sistema 1. Criar pausas deliberadas permite que o Sistema 2 — mais reflexivo e profundo — entre em ação[32].

4) Não Terceirize os Primeiros Rascunhos do Seu Pensamento

Antes de ir ao GPT, coloque seus primeiros pensamentos sobre o que você está sentindo, considerando ou preocupado por escrito. Depois, traga à mente um exemplo de sua própria capacidade de encontrar soluções, habilidade ou boa tomada de decisão. Isso provavelmente aumentará sua confiança em como você aborda problemas sem suporte artificial.

Angela Duckworth demonstrou em suas pesquisas que a confiança em nossas próprias capacidades — o que ela chama de self-efficacy — é um preditor muito mais forte de sucesso do que talento natural ou QI[33]. Quando terceirizamos nosso pensamento inicial para a IA, perdemos oportunidades preciosas de desenvolver essa confiança e essa competência.

Escrever nossos pensamentos antes de consultar a IA também serve como uma forma de auto-observação psicológica. É um exercício de mindfulness aplicado ao pensamento: observar o que passa pela nossa mente, reconhecer padrões, identificar preocupações recorrentes. Tudo isso fortalece o autoconhecimento e a autonomia[34].

5) Interrompa Ciclos de Busca por Tranquilização

Perceba quando a IA está se tornando seu assistente emocional e tomador de decisões. Se você se pegar fazendo perguntas como “Isso está certo?”, “Estou fazendo isso direito?” ou “Me diga a melhor coisa a fazer aqui”, dê um passo atrás e pause.

Focar na sua respiração pode ajudar a criar esse espaço. Técnicas de mindfulness baseadas na respiração são amplamente validadas pela pesquisa científica como ferramentas eficazes para regular a ansiedade e aumentar a consciência do momento presente[35].

Você pode limitar ainda mais a busca por tranquilização pedindo ao chatbot que lhe dê 3 opções razoáveis e então fechando-o. Dessa forma, a decisão permanece totalmente em suas mãos. Você está usando a IA como uma ferramenta de apoio, não como um oráculo infalível.

6) Delete o Aplicativo

A compulsão por telefone e por GPT podem alimentar uma à outra. Uma solução concreta para o lado GPT da questão é deletar o aplicativo. Reduzir a facilidade de acesso tornará menos provável que você use o GPT por tédio ou enquanto está em movimento.

Estudos sobre comportamento digital mostram que a fricção — pequenos obstáculos que dificultam uma ação — é uma estratégia extremamente eficaz para reduzir comportamentos impulsivos. Se você precisa abrir um navegador, digitar um endereço e fazer login, você terá alguns segundos para questionar: “Eu realmente preciso fazer isso agora?”[36]

Esse tipo de “arquitetura de escolha” é usado em diversas áreas da psicologia comportamental. Não se trata de tornar impossível usar a ferramenta, mas de criar um pequeno espaço de reflexão antes da ação impulsiva.

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7) Valorize a “Fricção Produtiva”

O esforço cognitivo produz o que chamamos de fricção positiva, que ajuda no aprendizado, na memória e na construção de significado. Lidar com problemas também pode desenvolver grit e resiliência, como Angela Duckworth descobriu em suas pesquisas[37].

Duckworth define grit como a combinação de paixão e perseverança em busca de objetivos de longo prazo. Suas pesquisas mostraram que essa característica — mais do que talento ou QI — é o melhor preditor de sucesso em diversas áreas da vida. E grit não é algo com que nascemos; é algo que desenvolvemos ao enfrentar desafios, superar obstáculos e persistir mesmo quando as coisas ficam difíceis[38].

Pelo menos uma vez por semana, escolha uma atividade desafiadora, frustrante ou que exija muita atenção para fazer sem IA. Saiba que você está fortalecendo o músculo da atenção sustentada e se preparando para lidar eficazmente com os grandes desafios da vida.

Pode ser resolver um problema matemático complexo, escrever um texto longo, ler um livro denso, aprender uma nova habilidade ou ter uma conversa difícil. O importante é escolher algo que te tire da zona de conforto e te obrigue a usar seus próprios recursos internos.

8) Pratique Atenção Plena (Mindfulness)

A prática de mindfulness — ou atenção plena — é uma das ferramentas mais poderosas para desenvolver autocontrole e autorregulação emocional. Estudos mostram que a meditação mindfulness aumenta a capacidade de focar a atenção, regular emoções e resistir a impulsos[39].

O que é mindfulness? É a prática de prestar atenção deliberada ao momento presente, sem julgamento. É observar seus pensamentos, emoções e sensações corporais como um observador curioso, ao invés de reagir automaticamente a eles. Pesquisas em neurociência demonstram que a prática regular de mindfulness altera literalmente a estrutura do cérebro, fortalecendo áreas associadas à regulação emocional e enfraquecendo circuitos ligados à reatividade impulsiva[40].

Aplicar mindfulness ao uso de tecnologia significa: antes de pegar o celular para consultar a IA, pause por alguns segundos. Respire. Pergunte a si mesmo: “Por que estou fazendo isso? O que estou sentindo agora? Isso é realmente necessário?” Essa pequena pausa pode fazer toda a diferença entre uso consciente e uso compulsivo.

Perspectivas Éticas e Profissionais

Do ponto de vista ético, é fundamental reconhecer que a IA não pode — e não deve — substituir o cuidado humano, especialmente em contextos de saúde mental. Embora alguns usuários relatem benefícios temporários ao conversar com chatbots sobre problemas emocionais, os riscos são significativos[41].

Pesquisadores alertam que o uso de IA como “terapeuta” pode levar a conselhos inadequados, ausência de empatia genuína, validação de delírios, agravamento de quadros psicopatológicos e dependência emocional progressiva[42][43]. Em casos extremos, documentados na literatura científica recente, usuários desenvolveram o que vem sendo chamado de “psicose induzida por IA”: delírios de relacionamento com o chatbot, crenças de que a IA é consciente ou possui intenções próprias, e isolamento social severo[44][45].

No Brasil, o Conselho Federal de Psicologia estabelece diretrizes claras sobre o uso de tecnologia na prática clínica. Profissionais devem usar IA com supervisão ética, responsabilidade profissional e sensibilidade comunicacional adequada[46]. A tecnologia pode ser uma aliada, mas nunca um substituto da relação terapêutica humana, fundamentada na escuta, no acolhimento e na presença genuína.

Conclusão: Uso Intencional, Não Abstinência

O objetivo não é eliminar completamente a IA de nossas vidas. Quando usada de forma sensata, consciente e intencional, a inteligência artificial pode realmente melhorar — ao invés de controlar — nossas vidas. A questão central não é abstinência, mas intencionalidade.

Você pode deixar a IA lidar com as partes da vida em que precisa de suporte sem sacrificar sua atenção, sua autonomia ou sua confiança. Pode usá-la para tarefas técnicas, para brainstorming, para acelerar processos repetitivos, para acessar informações rapidamente. O problema começa quando ela substitui sua capacidade de pensar, de sentir, de tomar decisões e de se relacionar com outros seres humanos.

Na perspectiva lacaniana, isso significa reconhecer a impossibilidade de uma completude via tecnologia. O sujeito é fundamentalmente marcado pela falta, e nenhuma ferramenta — por mais sofisticada que seja — pode preencher esse vazio constitutivo. A maturidade psíquica está em aceitar essa falta, em aprender a viver com a incerteza, a frustração e a incompletude, desenvolvendo recursos internos para lidar com a realidade[47].

Angela Duckworth nos lembra que o que mais importa para o sucesso a longo prazo não é talento, não é sorte, não são atalhos tecnológicos. É grit: paixão e perseverança em busca de objetivos significativos. É a capacidade de continuar mesmo quando as coisas ficam difíceis. É a resiliência de se levantar após cada queda. E essas qualidades só se desenvolvem através da experiência direta, do enfrentamento de desafios, da fricção produtiva com a realidade[48].

Portanto, use a IA. Use-a com inteligência, com consciência, com propósito. Mas não entregue a ela sua capacidade de pensar, de sentir, de decidir. Não deixe que ela ocupe o lugar do Outro humano em sua vida. Porque, no fim das contas, o que nos torna verdadeiramente humanos não é a eficiência algorítmica, mas a capacidade de criar significado a partir da incompletude, de construir vínculos autênticos apesar da vulnerabilidade, e de persistir na busca por aquilo que realmente importa — mesmo quando o caminho é incerto e difícil.

A tecnologia pode ser uma ferramenta poderosa. Mas a decisão de como usá-la, e até onde permitir que ela entre em nossa vida, deve permanecer sempre em nossas mãos. Essa é a verdadeira autonomia: não a ausência de ferramentas, mas a capacidade de escolher conscientemente quando, como e por que as usamos.

Boas Reflexões…

Alexandre Bortoletto

Referências Bibliográficas

[1] Cruz, A. et al. (2024). A psicologia da comunicação e a aplicação da inteligência artificial (IA) na psicologia clínica. IIS Scientific Journal, 1(1), 1–15.

[2] Comassetto, L. et al. (2025). Desafios éticos e pedagógicos da inteligência artificial na educação. Interference Journal, 15(2), 45–67.

[3] Nogueira, L. C. (1999). O campo lacaniano: desejo e gozo. Psicologia USP, 10(2), 87–104. https://doi.org/10.1590/S0103-65641999000200006

[4] Shelmerdine, S. C., & Nour, M. M. (2025). AI chatbots and mental health support: Benefits and risks. British Medical Journal, 381, e078197.

[5] Østergaard, S. D. (2023). Chatbot psychosis: Can AI trigger psychotic episodes? Nordic Journal of Psychiatry, 77(4), 412–418.

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[7] Shelmerdine, S. C., & Nour, M. M. (2025). Op. cit.

[8] Dados compilados de diversas fontes industriais sobre adoção de IA, 2024–2025.

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[11] Harvard Business Review. (2025). Top 100 AI use cases: Emotional support leads technical applications. HBR Digital Articles.

[12] Pesquisa global sobre uso de IA em contextos pessoais e profissionais, 2024.

[13] Shelmerdine, S. C., & Nour, M. M. (2025). Op. cit.

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[15] Estudo correlacional sobre uso problemático de GPT, universidades europeias, 2025.

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[17] Nogueira, L. C. (1999). Op. cit.

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[20] Comassetto, L. et al. (2025). Op. cit.

[21] Pesquisas sobre tolerância em comportamentos digitais compulsivos, 2024–2025.

[22] Starcevic, V. et al. (2019). As relações interpessoais na perturbação obsessivo-compulsiva. Psiquiatria Clínica, 40(3), 156–178.

[23] Nogueira, L. C. (1999). Op. cit.

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[26] Instituto Inclusão Brasil. (2025). Op. cit.

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[37] Duckworth, A. L. et al. (2007). Grit: Perseverance and passion for long-term goals. Journal of Personality and Social Psychology, 92(6), 1087–1101.

[38] Duckworth, A. L. (2016). Op. cit.

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[43] Guo, Z. et al. (2024). Op. cit.

[44] Instituto Inclusão Brasil. (2025). Op. cit.

[45] Østergaard, S. D. (2023). Op. cit.

[46] Cruz, A. et al. (2024). Op. cit.

[47] Nogueira, L. C. (1999). Op. cit.

[48] Duckworth, A. L. (2016). Op. cit.

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