Third day of a seven day binge
Ele pode me salvar, mas ele não pode amar. Ou talvez, só não possa me amar especificamente. E essa pequena possibilidade é o que me corrói por dentro enquanto escrevo, deitado na cama depois de três dias sem dormir direito. Não sei. Não sei de nada, na verdade. A única certeza que eu tenho é que o Emanuel é a minha salvação nessa cidade nova, na solidão esmagadora da capital, no tédio mortal que vai da sexta à noite até o domingo à tarde, quando tudo parece fechar e o silêncio pesa.
Ele é a salvação do meu coração quebrado em pedaços que ainda nem consegui juntar direito, da minha busca incessante por alguém que me guie — porque eu pareço sempre precisar de alguém que mostre o caminho, que segure minha mão e diga “vem”. E ele me guia, sim. Ele cuida de mim de um jeito que ninguém cuidou desde que me mudei pra cá. Ele me leva para os locais mais insalubres de Goiânia, aqueles lugares que minha mãe morreria de desgosto se soubesse, enquanto divide um êxtase de abacaxi comigo como quem divide um segredo.
Ele me leva para a casa dele, me empresta roupas que ainda carregam o cheiro do seu amaciante, dorme do meu lado na cama pequena, faz carinho no meu cabelo até eu pegar no sono. Mas acaba aí. Sempre acaba aí. E eu deveria me sentir satisfeito com isso. Eu deveria me contentar, porque ele me oferece tanta coisa que outros não ofereceriam afeto, cuidado, presença. Eu tinha até aceitado, em algum nível, que nossa relação seria algo quase fraternal, um amor sem possessão, sem cobranças.
Mas passar 72 horas ininterruptas junto com ele me fez repensar tudo. O tempo contínuo tem dessas coisas: ele escancara o que a gente tenta esconder de si mesmo. Provavelmente eu seja apaixonado por ele. Não daquele amor romântico idealizado dos filmes, mas de um jeito torto, confuso, que não cabe em definições. E ao mesmo tempo, essa paixão não impede a gente de se divertir em todas as oportunidades que estamos juntos. Não impede a gente de beijar outras bocas, de buscar em outros corpos o que a gente não pode — ou não quer — encontrar um no outro.
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A gente até divide pessoas. Como aquele rapaz na boate que me beijou primeiro e depois foi te beijar também, e eu juro que achei o máximo, achei lindo, achei tão a nossa cara. Você arranja pessoas pra eu beijar, como se fosse meu cupido numa versão distorcida e noturna. Inclusive, dei um dos melhores beijos da minha vida esse fim de semana, com um conhecido seu. Foi tão bom que me lembrou até o seu beijo, Manu. O seu beijo que eu sinto falta sem nem ter direito de sentir.
A gente se conheceu em novembro, no mesmo lugar que a gente costuma ir com certa frequência quando a noite pede algo mais. Você simplesmente chegou em mim, me beijou a noite toda como se ninguém mais existisse no mundo, dançou coladinho em mim num suor compartilhado e compartilhou a fumaça do meu vape direto na minha boca, num gesto tão íntimo que parecia mais do que era. Eu fiquei obcecado depois daquilo. Obcecado de um jeito besta, adolescente, que pensei ter deixado pra trás.
Mas o pior aconteceu. O seu melhor amigo me beijou na boca naquele mesmo dia, e você viu. E você guarda rancor disso até hoje, com eventuais alfinetadas sobre o tema que surgem do nada, em momentos aleatórios, como se aquilo ainda queimasse dentro de você. Por isso eu não entendo. Me explica, por favor, porque eu realmente não consigo entender: se você me salva, mas não pode me amar, porque isso ainda é um campo nebuloso entre a gente? Por que ainda existe esse ranço, essa sombra?
Por que você se despede de mim com um selinho demorado, me deita no seu colo e me faz dormir fazendo cafuné como quem acalma uma criança? Não sei. Talvez eu nunca vá saber. Mas vou conseguir ficar satisfeito com tudo isso que você me entrega, sem a necessidade de exigir alguma expectativa romântica boba — porque a gente não se conheceu assim, porque a gente não prometeu nada, porque eu também não estou numa fase boa para garantir fidelidade a ninguém, nem a mim mesmo.
Mas obrigado por me salvar, Manu. É sério. Não saberia estar aqui nessa nova vida sem você. Não saberia como preencher os vazios, como enfrentar os domingos, como existir nessa cidade que ainda me engole. Espero ter muitas experiências contigo, boas, ruins, tortas, todas elas. E que nossa relação seja fortificada, mesmo que ninguém saiba direito nomear o que a gente é.
Que tenhamos sete dias de bebedeira e drogas consecutivos, porque três já foram, e eu já sinto falta do que ainda nem acabou.





