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C. A. da Costa Nogueira

C. A. da Costa Nogueira

Estranho demais para viver, raro demais para morrer.

O diário de Belém: A COP30 de cada dia — DIA 2.

18 min readMay 13, 2026

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Resenha crítica por Célio Adriel da Costa Nogueira

11 de novembro de 2025 (Dia 2).

INTRODUÇÃO.

O segundo dia de COP30 ocorreu na terça-feira (11 de novembro) e ferveu em relação a diversos campos de trabalho, trazendo resultados significativos, com ênfase na governança climática e multinível e no mutirão contra o calor. Com isso, aos passos cautelosos em que a Conferência rumava para o Dia 2, o foco das negociações e deliberações se voltava aos desafios de transformar a ambição climática em implementação real — apelo central da sociedade civil para a edição deste ano. Foi neste sentido que os principais desdobramentos suscitaram debates sobre o fortalecimento da ação local e subnacional no processo de desenvolvimento da resiliência climática.

De início, o que esteve em perspectiva foram os esforços coletivos para atingir mudanças sistêmicas ao redor do mundo. A COP30 voltou a firmar com resolução o seu compromisso com lugares e pessoas reais, destacando a centralidade delas quando da incorporação da liderança local aos marcos globais. A principal mensagem neste momento é clara: a ação climática começa no nível local e evidencia-se em espaços tangíveis, como as casas, cidades e comunidades. De fato, os eventos de alto nível programados para esta terça-feira de COP objetivaram demonstrar a ligação inexorável entre a vida cotidiana e os fenômenos do quadro climático.

Os comunicadores oficiais da COP30 assinalaram em seu portal que os governos locais e subnacionais estão transformando a ambição em lares mais seguros a partir de um conjunto estrutural que compreende edificações resilientes, sistemas de alerta precoce, água limpa e economias fortes. Assim, promovendo a resiliência climática onde ela for mais necessária. Os negociadores, inspirados pelo espírito do mutirão — o esforço coletivo — do Brasil, celebraram energicamente o poder da parceria multinível e de uma ação climática que protege, conecta e fortalece a vida comunitária de modo crescente. Com isso, através da Síntese Diária da COP30 [1], vamos avaliar o balanço de resultados em mais um avançar da agenda climática.

O QUE ACONTECEU?

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Inaugurações de espaços, homenagens e o Anuário da Ação Climática Global de 2025.

Antes das negociações oficiais se desenrolarem no seio da COP30, a Conferência marcou progresso em inovações e no reconhecimento de legados. Inicialmente, cabe destacar que a abordagem desta edição foi inédita ao refletir os eixos estruturais do Balanço Global do Acordo de Paris (GST) em seis espaços físicos diferentes, os denominados Espaços Temáticos da Agenda de Ação. A programação envolvente que se seguirá nas próximas 2 (duas) semanas oportuniza que as mais de 400 iniciativas internacionais de cooperação, mapeadas e envolvidas na Agenda de Ação unificada, apresentem e divulguem resultados concretos em mais de 100 Planos para Acelerar Soluções (PAS). Tal movimento é de extrema importância e alimenta a dimensão implementativa desta Conferência.

O evento de abertura do Dia 2 da COP30 também deu margem para homenagens e reconhecimentos de legados importantes. Após a conclusão do seu mandato, o trabalho da Campeã de Alto Nível para o Clima da COP29 — Nigar Arpadarai — foi reconhecido pela sua liderança e contribuição no avanço de uma Agenda Global de Ação Climática mais inclusiva e colaborativa. Nesta medida, o evento de abertura ressalta as conexões de esforços coletivos entre as Conferências, demonstrando que as ações no enfrentamento da crise do clima são, antes de tudo, progressivas, indissociáveis uma das outras e construtivas, gerando um vínculo de comunhão para toda a humanidade diante do nosso contexto climático.

Finalmente, outro marco prefacial do dia 11 de novembro foi a publicação do Anuário da Ação Climática Global de 2025 [2]. O relatório anual registra dados de progressos e lacunas no panorama da ação climática global. Capitaneado pelos Campeões do Clima e pela UNFCCC e desenvolvido a partir de levantamentos do Portal NAZCA (Non-State Actor Zone for Climate Action) o anuário corrente ressaltou avanços notórios em temas exemplares como o da energia renovável, eletrificação dos transportes e financiamento climático global. Em contrapartida, registrou desafios reincidentes em figurinhas repetidas: os combustíveis fósseis e emissões, o agravamento generalizado da degradação ambiental e o déficit de adaptação climática.

Sobre a governança climática multinível.

Como destacado alhures, o Dia 2 da COP30 registrou uma grande oportunidade no âmbito do fortalecimento da liderança local para a implementação global do clima. Neste contexto, o Brasil anunciou dois marcos excepcionais durante a Reunião Ministerial de Alto Nível: Governança Multinível para a Implementação do Acordo de Paris e da Estratégia Climática, a fim de galgar progresso nos termos e soluções de uma governança climática multinível.

A ocasião lançou ao mundo um novo Plano para Acelerar Soluções, coordenado pela Presidência da COP30, os Ministérios de Meio Ambiente (MMA) e das Cidades (MCID) do Brasil e pelo ONU-habitat. O objetivo deste PAS é integrar estruturas multiníveis em 100 metas climáticas diferentes (NDCs) até o ano de 2028. Além disso, o plano visa capacitar 6.000 servidores públicos em governança climática, unir países, redes subnacionais e parceiros financeiros e alinhar os compromissos da nação com as prioridades locais. Desta forma, também pretende acelerar a transição do planejamento à execução e fortalecer a implementação global como consequência.

Sem demora, o Brasil também aproveitou o ensejo para anunciar a sua liderança — junto da Alemanha — em uma nova estrutura de governança com copresidência para a Coalizão por Parcerias Multiníveis de Alta Ambição (CHAMP) até 2027. A nova fase da Coalizão CHAMP assume uma estrutura formal liderada por países, apoiada por 77 nações e pela União Europeia. Na esteira de novos avanços, o plano lançou as Plataformas Nacionais de Localização de Financiamento (CPLFs) em dois países africanos pioneiros, Camarões e Madagascar. Com efeito, espera alcançar seis países diferentes até o ano de 2028, mobilizando a importância de USD 350 milhões, além de envolver 200 governos locais e regionais.

É importante rememorar que o nosso país, ainda no primeiro dia de COP30, realizou esforços consideráveis sobre o tema durante o painel “Governança climática multinível: CIM e outras experiências globais”. Neste sentido, o secretário nacional de Mudança do Clima do MMA, Aloísio Melo [3], defendeu uma legislação específica para dar estabilidade às políticas climáticas. Ele ressaltou o caráter totalmente transversal da emergência, o que dá cabo ao diálogo com diversos segmentos, atores públicos e sociais e diferentes níveis de governo.

De acordo com o portal de comunicação do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, os resultados destas estratégias endossam a fala de Melo e demonstram como essa ação do governo nacional se aproxima de consolidar a agenda climática como assunto prioritário em todos os níveis — promovendo a integração federativa, participação social e decisões baseadas em evidências — no Brasil e ao redor do mundo.

Edificações sustentáveis e a água como pilar central da ação climática.

A arquitetura tem um espaço fundamental na ação climática e disso não temos dúvida. Foi pensando nisso que a COP30 lançou novos padrões globais para edificações sustentáveis e resilientes, através da Building Breakthrough Initiative, liderado pela Global Alliance for Buildings and Construction. O chamamento para uma estrutura ecológica nas edificações urbanas é uma iniciativa salutar, conquistando avanços significativos rumo às Edificações Próximas de Zero Emissões e Resilientes (NZERBs).

Os padrões definem princípios sobre as emissões, resiliência e vulnerabilidade, além de criar uma linguagem global comum para ação climática. Com efeito, países como a Colômbia, França, Finlândia, Gana, Japão e Quênia endossaram um Marco Global de Ação sobre Compras Públicas, a fim de aumentar a demanda por edificações sustentáveis e circulares mediante aquisições governamentais. O World Green Building Council foi o responsável por publicar os padrões no Relatório Interino sobre as NZERBs.

A água também figurou como assunto central no segundo dia de realização da Conferência em pelo menos dois momentos chaves, dentre os quais o mais importante resultou na adoção da Declaração Conjunta sobre Água e Ação Climática. Em um primeiro momento, foram lançados programas de investimento hídrico na América Latina e no Caribe. Pelo menos até 2030, esses programas visam mobilizar USD 20 bilhões para investimentos em águas resistentes às mudanças climáticas, integrando o Programa de Investimento em Água da América Latina e Caribe. A iniciativa abarca diversos atores econômicos e climáticos, sendo liderada pela Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (CEPAL), o Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe (CAF) e a Parceria Global pela Água (GWP). Os projetos incluem o abastecimento de água potável, a modernização de sistemas irrigadores e a resiliência a inundações e secas no continente americano.

Seguidamente, a COP da Amazônia ensejou o papel da água na adaptação, resiliência e desenvolvimento sustentável. Diversos ministros e parceiros globais estiveram na Reunião Ministerial de Alto Nível sobre Água e Ação Climática — “Águas da Mudança” a fim de combinar os esforços e ensejá-la como uma questão essencial no âmbito da ação climática global. Esse diálogo se conecta com os marcos das 2 (duas) COPs anteriores e também pavimenta um caminho concreto em duas direções: a) rumo à Conferência da ONU sobre a água, a ser realizada em 2026 e b) à revisão do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável n° 6 da ONU, que se debruça sobre a questão hídrica e do saneamento.

Diante da efervescência do tema, o Brasil anunciou dois Planos de Aceleração. O primeiro trata sobre Gestão e Governança Participativa da Água e o outro sobre Acesso à Água Doce para Comunidades Vulneráveis. Ambas as iniciativas são emblemáticas na medida em que se voltam para a ampliação e acesso seguro à água, ao fortalecimento da governança e à aceleração do financiamento para a adaptação climática. A sessão contou com a participação de diversos atores, como a Governança da Água da OCDE (WGI), Aliança Global para Adaptação da Água (AGWA) e o Pavilhão da Água para o Clima e culminou na adoção da declaração anteriormente mencionada, figurando como momento de reafirmação do compromisso entre os países quando do enquadramento da água como um centro indispensável de políticas e investimentos climáticos.

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Sobre a transformação de resíduos e plataformas digitais de informação.

O Dia 2 também foi ocasião para apresentar novas tratativas de transformação de resíduos em ação climática, para além do lançamento de plataformas digitais interativas na COP30. Sobre os resíduos, figuram com proeminência a iniciativa Sem Resíduos Orgânicos (No Organic Waste / NOW) e o Mutirão pela Gestão Sustentável de Resíduos Eletrônicos e Inclusão Digital. O primeiro deles compreende um esforço global no enfrentamento de uma das fontes de gases de efeito estufa que mais cresce. Mirando o ano de 2030, o Plano NOW de Acelerar Soluções compromete-se a reduzir pelo menos 30% das emissões de metano oriundas de resíduos orgânicos, transformando alimentos descartados em nutrição, geração de renda e ação climática efetiva. O principal apoiador da plataforma é o Centro Global do Metano , enquanto as bases para o compromisso vêm sendo consolidadas a partir de um investimento de USD 30 milhões — sendo que ⅓ do valor será destinado à América Latina — que prospecta acelerar as ações em cidades.

Outros dados breves e interessantes sobre o NOW incluem a pretensão do plano em recuperar 20 toneladas de alimentos excedentes por ano, alimentar 50 milhões de pessoas e integrar formalmente 1 milhão de trabalhadores de resíduos da economia circular. São números bem significativos quando pensamos que, logo de cara, 25 cidades de 18 países diferentes estão participando da iniciativa. Com o passar do tempo, a próxima fase vai ampliar projetos-pilotos urbanos, centrais de compostagem e redes de bancos de alimentos, para além de fornecer apoio técnico e financeiro.

Falando em economia circular, o Mutirão pela Gestão Sustentável de Resíduos Eletrônicos e Inclusão Digital destaca o impulso do Brasil pela reciclagem, recondicionamento e educação diante dos resíduos eletrônicos. O mutirão foi organizado pelo Ministério das Comunicações e pela Presidência da COP30, apresentando esforços nacionais para enfrentar os desafios deste tema. O evento contou com a doação de 100 computadores recondicionados para centros comunitários e celebrou a capacitação de 2.700 jovens do Brasil em gestão sustentável de resíduos eletrônicos. O saldo deste esforço reforça os laços entre a inclusão digital, a economia circular e os alvos da adaptação climática.

Por fim, a democratização de acessos e participação global da COP30 teve expansão através do lançamento da Maloca. Trata-se de uma plataforma digital, interativa e desenvolvida no âmbito do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) em colaboração com a presidência do evento. O projeto busca ampliar o acesso às discussões climáticas globais para diversos usuários conectados em rede. A Maloca já está em funcionamento, oferecendo espaços imersivos e participação virtual em eventos, exposições e diálogos da COP de Belém. Os eventos de hoje trataram de temas como resiliência climática, desenvolvimento sustentável e demonstram, sobretudo, a preocupação do evento em atingir todos os extratos sociais através da arma mais poderosa de comunicação: a internet.

Beat the Heat e o combate ao calor extremo.

O Dia 2 na capital paraense foi escaldante, com termômetros ultrapassando os 30 °C. A situação é coincidente, pois as discussões no âmbito da COP30 ficaram marcadas por uma mobilização extremamente importante. Ao lado das estratégias sobre governança climática, o Governo Federal e a Organização das Nações Unidas anunciaram esforços diante do calor extremo. Nesta toada, os desdobramentos sobre o tema permitiram resultados sólidos em relação a um problema que se “sente na pele”.

A sessão de alto nível marcou o lançamento da fase de implementação do Mutirão contra o Calor Extremo, liderada pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e pela presidência da COP30 no âmbito do Compromisso Global de Resfriamento. Foi assim que a campanha para vencer o calor ou o Beat the Heat foi lançada na COP de Belém, afigurando-se como um Plano para Acelerar Soluções e combater o calorão ao redor do globo. Os esforços mobilizam cidades e financiamentos para desenvolver estratégias de resiliência climática ao calor, baseando-se em soluções da natureza. Essas soluções compreendem florestas urbanas, parques, telhados verdes, lagos e drenagem pluvial. O pacote também inclui o resfriamento passivo em edifícios, superfícies refletoras e a aquisição pública de tecnologias arrefecedoras com alta eficiência energética e baixo potencial de aquecimento global.

O mutirão será implementado no contexto do Programa Cidades Verdes Resilientes (PCVR), coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Ao todo, mais de 60 cidades brasileiras já aderiram à iniciativa, comprometendo-se [4]. De volta ao fundo geral do Beath the Heat, observa-se que o plano envolve mais de 36 países e 83 parceiros-essenciais, prospectando o apoio para mais de 185 cidades. A ação não será verticalizada, mas dialoga justamente com planos locais de ecologização e ação contra o calor. Neste sentido, a campanha projeta reduzir os riscos do calor para 3,5 bilhões de pessoas ao redor do mundo, integrando tais soluções em pelo menos 50 estruturas nacionais de adaptação até o ano de 2030.

Por fim, o mutirão se volta a quem mais sofre com o calor extremo: as comunidades e as populações vulneráveis. Com efeito, as ações e esforços dialogam com trabalhos para lidar com o calor extremo em ambientes como escolas, centros de saúde e esportivos, além de espaços abertos, onde o aquecimento agride com maior intensidade. A Diretora-Executiva da COP30, Ana Toni, visualiza esse compromisso como: “ […] um exemplo de como unir todos com um objetivo específico de capacitação por meio da esperança e da ação, em parceria com prefeitos e o setor privado”, defendendo uma resposta coordenada e intersetorial de integração climática nas políticas urbanas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS.

Abrindo as escusas para uma afirmação mais ou menos temerária, é possível visualizar que o segundo dia de COP30 angariou resultados mais produtivos [ou menos contraditórios] que os marcos alcançados na abertura. Evidentemente que isso é completamente natural, uma vez que o esqueleto estrutural da Conferência começa a se calcificar. Apesar de determinadas controvérsias que precisam ser revestidas de uma análise sensível, o Dia 2 da Conferência certamente deixa uma silhueta de esperança e oportunidades principalmente para as comunidades que sofrem com o quadro terminal da crise climática.

Poder-se-ia opinar o contrário, uma vez que o saldo do Anuário da Ação Climática Global de 2025 nos revelou o que já sabíamos [2]. Findo mais um ano decisivo para o enfrentamento da crise climática, a humanidade ainda sofre com a terrível dependência dos combustíveis fósseis e da degradação ambiental. Parece que falar disso é tautológico, mas a necessidade de bater na tecla repetidas vezes é flagrante quando nos recordamos da imersão do planeta em um plano situacional do clima absolutamente insuficiente na manutenção da meta de 1,5°C. Em contrapartida, não adianta ao todo ser completamente pessimista, pois isso não representa nenhum tipo de progresso para a ação climática. Portanto, é preciso celebrar com ênfase os avanços climáticos registrados no anuário, como a duplicação da capacidade de energia renovável e o aumento gritante da venda de veículos elétricos. Também não foi obra do acaso que o fluxo de financiamento climático global triplicou entre 2015 a 2023, mobilizando mais de USD 1,9 trilhões. Isso é resultado de muito esforço empreendido em ambientes como esta Conferência.

Na esteira destes esforços, exsurge como resultado mais concreto e interessante da COP30 o avanço nos termos da governança climática multinível. Neste sentido, as lideranças nacionais se aproximam de uma abordagem mais horizontal e menos verticalizada das políticas climáticas, corroborando com os “espaços reais e as pessoas reais”. Entretanto, é preciso dizer que o gargalo das soluções climáticas em espaços locais e subnacionais ainda registra desigualdades sociais assustadoras. O anuário registrou que aproximadamente 3,6 bilhões de pessoas vivem em áreas altamente vulneráveis aos extremos do clima. É neste recorte que a COP30 volta a assumir o caráter binário de suas responsabilidades: será que essas pessoas e espaços reais são os que estão silenciados aos nossos ouvidos?

O Observatório do Clima registrou a manifestação da Coalizão Negra por Direitos — articulação nacional que reúne 248 organizações do movimento negro e aliadas — que deixou um recado firme aos atores da Conferência [5]. O manifesto entregue ao governo denuncia que apesar do protagonismo brasileiro na liderança climática, o país não incorporou concretamente a dimensão racial nas políticas climáticas. O esforço da Coalizão alerta que a emergência do clima escancara desigualdades estruturais e revelam que o racismo ambiental não é metáfora, mas uma política de morte. Além disso, critica com muita agudeza o apagamento da questão racial nos documentos oficiais da COP30, que tratou genericamente os temas de justiça climática e transição justa, sem a estes incorporar a realidade concreta da população afrodescendente. Em suma, o manifesto convoca a sociedade civil e o governo brasileiro a romperem com a lógica de exclusão e silenciamento que estão deixando marcas indeléveis de desigualdade no regime climático.

Trata-se de um breve parênteses, mas que revela muita coisa. Realmente, as iniciativas na esfera da governança climática multinível contaram com resoluções sólidas diante da exemplaridade do federalismo climático brasileiro. Declarações muito felizes, como a do Ministro das Cidades, Jader Filho, realçaram: “Se nós não envolvermos os líderes subnacionais, será impossível alcançarmos as metas de redução de emissões. […] a vida e as ações não acontecem na federação. Nós podemos, a partir dos governos centrais, indicar diretrizes e fazer recomendações, mas quem executa, de fato, as ações são os líderes subnacionais” [6]. Destaca-se aqui que a linha de frente da implementação de instrumentos não é o governo federal. A execução de instrumentos importantes lançados no segundo dia de Conferência, como o Pacto pelas Cidades Verdes Resilientes, são de responsabilidade de prefeitos e governadores, a partir de um diálogo intersetorial indispensável entre os atores públicos.

Nesta medida, a denúncia feita pela Coalizão converge para a necessidade de que a lógica de pensamento transversal — preocupada com o fato de “Os dois mil municípios mais carentes e vulneráveis do país são exatamente os que menos capacidade adaptativa têm” [7] — ser a mesma que reconhece a racialização das políticas climáticas no combate às desigualdades sociais registradas. Essas são as pessoas reais.

Mudando a atenção para à água, os efeitos que virão da mobilização de financiamento a respeito do tema certamente serão relevantes para contextos que ainda enfrentam problemas de acesso seguro à água, de saneamento e dos extremos climáticos. O enfoque na América Latina torna a situação ainda mais resoluta, pelo menos em um primeiro plano. O Observatório do Clima publicou um importante levantamento para destacar que quem mais sofre com os extremos climáticos [gerais] é o Sul Global [8]. Além disso, entre os dez países que mais sofreram com as consequências deste processo, não há nenhum rico. Apesar dos dados não se voltarem especialmente à questão hídrica, o registro do Índice de Risco Climático 2026 — lançado pela organização Germanwatch — agregou as inundações e secas severas a outros episódios catastróficos que juntos somam mais de 10 mil eventos climáticos extremos entre 1995 a 2024.

Ao longo das últimas três décadas, o país caribenho Dominica e a Honduras figuram no infeliz pódio das nações mais afetadas pelos extremos. Se isso não é um dado “suficiente”, basta olhar para o vizinho Rio Grande do Sul e as enchentes devastadoras de 2024. É lamentável, mas demonstra a crua necessidade da COP30 em examinar formas eficazes para reduzir as lacunas globais de ambição, como ilustram os resultados preliminares do índice. O apelo por águas de mudança deve ser efetivo e se agigantar diante de dados tão preocupantes. O saldo positivo é que muito da construção feita sobre o tema da água na COP30 vai pavimentar um caminho sólido rumo à Conferência da ONU sobre a Água — que ocorrerá em 2026 — colaborando com resultados que influenciam os futuros roteiros de negociação e inspiram maior cuidado nas tratativas sobre a questão.

E precisamos falar do calor. Ao lado da governança climática multinível, foi o tema com maior destaque no segundo dia da COP30. As campanhas em combate às extremas temperaturas foram fundamentais e, de certa forma, encerram todas as discussões perseguidas até o momento. Basta observar que os principais alvos de um sol de rachar são as populações vulnerabilizadas por condições socioeconômicas, como a afrodescendente. A Conferência sabe que isso acontece de maneira absolutamente desproporcional e muitos são os dados que revelam a criticidade do calor extremo no Brasil. Por exemplo, entre 2000 e 2018, as insuportáveis ondas de calor contribuíram para a morte de mais de 55 mil pessoas nas cidades brasileiras [4]. Ainda está fresco na memória que este vilão climático apavorou e obrigou o fechamento de muitas escolas em 2024. Trata-se de uma crise sem precedentes, responsável por vitimar as pessoas comuns que estão em transportes públicos e trabalhando em espaços insalubres em pleno sol de meio-dia; e não as que estão em ambientes confortáveis com o ar-condicionado ligado.

Nesta toada, volta a aparecer o sistema de dupla responsabilidade da COP no mutirão contra o calor. A primeira delas é se envolver com os instrumentos de diálogo intersetorial e multinível, já que o esforço será implementado no âmbito do Programa Cidades Verdes Resilientes (PCVR) do MMA. Oferecer um mapa do caminho para garantir que a solução seja baseada na natureza e que o aquecimento sustentável se integre no clima e na política urbana significa projetar a sua força em nível local e subnacional, com os seus esforços voltados à comunidade para conseguirmos resultados coletivos diante do calor.

Outra responsabilidade que a COP precisa se ater está vinculada ao “frio que esquenta”. Como assim? O ar-condicionado foi destacado anteriormente pois os sistemas refrigeradores computam um dado que parece paradoxal (mas é só aquecimento global). Caso você não saiba, os aparelhos arrefecedores são responsáveis pela emissão de gases de efeito estufa, sendo em vida (pela energia), seja em morte (com a liberação de gases responsáveis pelo arrefecimento). Nesta corda-bamba, o relatório Global Cooling Watch — divulgado pelo PNUMA no Dia 2 — assinala que a demanda por refrigeradores pode triplicar até 2050 [9]. A expectativa avalia tanto o aumento do calor como o da população mundial, revelando que a alta demanda por aparelhos de refrigeração acarretará em uma emissão de 7,6 bilhões de toneladas de carbono equivalente até o ano mencionado. O que assusta sobre esses dados é que eles já estão considerando todas as políticas de mitigação climática que deverão estar funcionando.

Porém, nem tudo está acabado. Existe um contorno mais otimista sobre estes dados, pois o relatório também aponta que essa curva crescente pode ter a sua trajetória modificada com aparelhos mais eficientes e renováveis. Avalia-se que estes tipos de aparelhos poderiam resultar em uma previsão 64% menor para 2050, diante dos números atuais. E vamos nos recordar que o anuário citado no começo registrou a duplicação da capacidade de energia renovável. Ao dimensionar os dados do relatório com as conquistas relacionadas à alta eficiência energética, definitivamente visualizamos um cenário reversível ao paradoxo dos aparelhos refrigeradores. A COP precisa de um pensamento voltado à economia circular. A mesma lógica que orientou as campanhas e mutirões bem-sucedidos sobre os resíduos orgânicos e digitais do Dia 2, também devem direcionar o mundo no combate ao calor extremo. Volto a repetir, não adianta nada inovar em uma solução e reposicionar um problema proporcional no lugar. Esse tem sido o drama da ação climática e o motivo pelo qual a humanidade não consegue frear a crise ante à ultrapassagem do ponto de não-retorno.

Por fim, a Conferência se direciona à uma finalidade de democratização e comunicação eficiente ao lançar iniciativas elogiáveis como a Maloca. A COP da verdade precisa se munir com rápidos e poderosos veículos comunicativos para garantir que o populacho nacional esteja a par das principais informações do evento. Não deve angariar a atenção popular através de sistemas estacionários, mas realizar algo interativo para a geração digital. Este é um momento de mobilização, cobrança e cobertura. Ações que realmente promovam a mudança, como a da Coalizão Negra por Direitos, só poderão surgir com uma base e acesso virtual desburocratizado. É tempo de colocar o algoritmo a favor do clima, não contra ele. A cooperação multinível, independente e social serve para paramentar a ação climática diante dos desgastantes resultados dos extremos do clima. O Brasil tem que liderar de maneira exemplar, recordando-se que o seu povo mais autêntico, este que pertence à uma civilização do sol, está disposto a escalar uma combate eficiente contra um dos seus maiores inimigos: o calor.

REFERÊNCIAS.

[1] COP30. Síntese Diária da COP30–11 de Novembro. Belém: Equipe de Comunicação da COP30, 11 nov. 2025.
[2] UNITED NATIONS FRAMEWORK CONVENTION ON CLIMATE CHANGE (UNFCCC). Yearbook of Global Climate Action 2025: Marrakech Partnership for Global Climate Action. Bonn: UNFCCC, nov. 2025.
[3] BRASIL. Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Painel debate experiências de governança climática e destaca papel do CIM. Brasília, 11 nov. 2025.
[4] BRASIL. Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Sessão de Alto Nível: Lançamento da Fase de Implementação do Mutirão contra o Calor Extremo. Brasília, 11 nov. 2025.
[5] OBSERVATÓRIO DO CLIMA. Coalizão Negra por Direitos lança manifesto sobre a COP30 ao governo brasileiro. [S. l.], 11 nov. 2025.
[6] BRASIL. Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Brasil lança plano para fortalecer a governança climática em todos os níveis da federação. Brasília, 11 nov. 2025.
[7] BRASIL. Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. MMA lança Pacto pelas Cidades Verdes Resilientes. Brasília, 11 nov. 2025.
[8] OBSERVATÓRIO DO CLIMA. Dez países mais afetados por extremos climáticos em 30 anos estão no Sul Global, mostra levantamento. [S. l.], 11 nov. 2025.
[9] OBSERVATÓRIO DO CLIMA. O frio que esquenta: demanda por refrigeradores pode triplicar até 2050, aumentando emissões. [S. l.], 11 nov. 2025.

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