Você é incapaz de fazer magia porque é um idiota (e como resolver isso).
É necessário que se compreenda que este texto tem como finalidade não só causar identificação, mas também ajudá-los a tomar consciência de certas coisas que se tornaram um caos silencioso e emergente na mente não apenas de pessoas da minha geração, mas também da anterior e da que está surgindo neste exato instante.
Vou dizer logo na lata: você se tornou um completo imbecil! Isso mesmo, você não está só pensando, como também agindo e vivendo como um imbecil. Você está quase como um incapaz quando o assunto é ler um texto e fazer uma interpretação digna, pois, para que isso aconteça, é necessária uma série de conhecimentos necessários, desde gramática e interpretação textual até o domínio do assunto e de outros assuntos correspondentes ao que você está lendo. E, além disso, você está um poço de fragilidade emocional e de necessidade de validação social. Há uma instabilidade emocional, psíquica e, por consequência, profissional e financeira tão grande que você provavelmente desenvolveu alguma CID. E os motivos disso são claros à minha vista: falta de consciência de classe, estímulos digitais em demasia, falta de leitura, negligência para com o seu corpo físico e emocional, pouco ou zero contato social humano em um nível satisfatório, e mais uma penca de coisas que seria redundante listar por aqui. E, por tudo isso, eu lhe pergunto: como um ser humano extraordinário pode ser criado a partir disso?
Não há como! E deste modo, introduzo a ideia que compõe o título deste texto: Você é incapaz de fazer magia porque é um idiota.
Devo pedir perdão nesta altura do texto; eu sei que fui bruta, mas achei interessante o choque de realidade inicial. Então, vamos por outra via…
Eu te entendo: estamos vivendo uma epidemia de estímulos que só existem para te tirar o máximo de dignidade e usá-lo como massa de manobra, facilmente manipulável para estimular o seu desespero por ‘parecer ser algo’ e ‘consumir algo’. Algumas coisas são perdoáveis, pois não fomos previamente preparados para tantos estímulos e nem para saber como lidar com eles — ou seja, não temos o repertório necessário para não nos perder nessa leva maldita de coisas que nos são impostas de uma forma muito maligna.
Maligna, sim. Os comerciais, as chamadas e os grupos moldam a tendência com base na necessidade e, se não há necessidade, eles criam uma e geram uma demanda. E você é o consumidor; logo, de um modo ou de outro, suas emoções serão cruelmente manipuladas por gatilhos inconscientes (há estudos específicos para isso), em que o apelo se dá ou por uma dor, ou por um estímulo podre em sua libido. De um modo ou de outro, é quase impossível não cair nessa armadilha.
Mas há outras coisas que eu não posso aliviar para você e para mim: graças ao desenvolvimento da internet, hoje temos um acesso ilimitado a todo tipo de informação sobre qualquer tema que você puder imaginar. E, deste modo, por que ainda assim você não é capaz de evoluir?
Ah, eu lhe digo: o vício em telas deixou o teu cérebro tão liso quanto um peito de frango, e isso tem lhe causado uma série de instabilidades emocionais que você nem percebe, achando apenas que a sua vida é uma bosta. Mas isso está errado; ouça-me, neste momento eu sou a sua voz da razão.
E é justamente por conta de tudo isso que você não tem nenhum bom resultado na sua magia, pois as coisas mais importantes que precisamos obter para desenvolver uma boa prática são: estabilidade emocional e psíquica, constância nos estudos profundos e prática, e tempo para contemplação real.
Vou lhes dar um relato pessoal recente. Quem me acompanha há algum tempo sabe o quanto eu sou dedicada aos meus estudos e quanto já sacrifiquei por isso; portanto, a minha constância na leitura sempre foi algo impressionante, até mesmo para os meus professores. Mas, num determinado momento da minha vida, tive que fazer mudanças de localidade e de moradia, e tive que me reacostumar a algo que não era o meu comum. Isso envolveu ter que me aprofundar cada vez mais nas redes sociais e, aos poucos e sem notar, eu fui perdendo algo: constância, disciplina, exatidão e tempo para contemplação. Devo dizer que, no meu caso, os meus efeitos mágicos não foram afetados, mas a minha capacidade de querer e gostar de me envolver com pessoas, sim.
Me vi tão imersa numa série de estímulos que eu já não estava mais suportando trabalhar com o público, mesmo que eu seja irrevogavelmente apaixonada pelo meu trabalho de astróloga e magissa (e mentora dessas artes). Passei a perceber isso quando senti resistência para atender mais pessoas por mensagens ou até mesmo para responder aos meus alunos. Eu passei a ter ódio do meu aparelho celular e ódio do barulho de notificação dele. Tudo isso passou a me causar uma ansiedade extrema.
Isso me acendeu a ideia deste texto, pois eu estava em crise existencial, me perguntando sobre o que havia de errado. E o desfecho dessas reflexões foi: não existe uma quantidade específica de tempo que você pode passar nas redes sociais sem se contaminar com o lixo, digo, conteudo que ali está.
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Hoje eu estou tratando a minha resistência, mas garanto que não tem sido fácil.
Voltando a você: bom, lendo a minha experiência com esse caos emergente, eu quero que você saiba que há como corrigir. Se o seu problema é a falta de disciplina, eu sugiro que passe a fazer um detox, reencontre a sua chama de propósito, e eu vou lhe ensinar como fazer isso. Agora chega de memes!!!
A primeira coisa que você precisa entender é que o caminho começa por tirar, e não por acrescentar. Plotino, que é o pai do neoplatonismo, termina um dos seus tratados (Enéadas ) com uma ordem de duas palavras: ‘tira tudo’. E, em outro tratado, o que fala sobre o Belo , ele explica como se faz isso: você deve se voltar para dentro e olhar para si mesmo e, se não gostar do que viu, deve fazer como o escultor, que corta um pedaço aqui, alisa outro ali, e não para de trabalhar na própria estátua. Percebe? Ele não mandou você enfiar mais uma penca de tarefas numa rotina que já está entupida; ele mandou tirar.
Os antigos davam um nome a isso: kátharsis, que significa purificação. Platão, no Fédon, define a purificação como o hábito de a alma se recolher e se juntar de novo, vinda de todos os cantos do corpo por onde ela estava espalhada.
Espalhada, sim. É exatamente isso que as tela fazem conosco, ela nos espalha em mil pedaços, um em cada aba, um em cada notificação, um em cada vídeo de quinze segundos na scrolada infinita. E, um pouco mais à frente, no mesmo diálogo, Sócrates diz que cada prazer e cada dor é como um prego que prende a alma no corpo.
Portanto, o detox que eu lhe proponho é simples de explicar e horrível de cumprir, e eu devo se rverdadeira, horrivel mesmo: o celular vai dormir fora do seu quarto, a primeira hora da sua manhã não terá tela nenhuma e as notificações serão desligadas. Isso mesmo, todas, pois quem decide a hora de olhar é você meu amigo e minha amiga, e não o teu aparelho. Vai te causar uma agonia nos primeiros dias, eu garanto, pois em mim causou e ainda causa. Mas deixe rolar.
Os neoplatônicos entendiam a vida como uma escada de virtudes (Plotino fala disso nas Enéadas , Porfírio organiza os degraus na Sentença, e Marino conta a vida inteira de Proclo subindo por eles, um por um, até chegar às virtudes teúrgicas, que ficam lááá no topo). E sabe qual é o primeiro degrau? As virtudes políticas, que são de uma simplicidade até humilhante, onde colocar medida no seu desejo, na sua raiva, na sua comida, no seu sono e no modo como você trata as pessoas. Ou seja, antes de querer falar com um Deus, você precisa ser capaz de jantar com alguém sem olhar o celular.
Devo abrir um parêntese bem aqui. A palavra ‘idiota’ vem do grego idiótes, que era o sujeito fechado naquilo que é só dele, que não participa da vida em comum, e também o leigo, aquele que não domina nenhum ofício. Então, quando eu digo que você é incapaz de fazer magia porque é um idiota, eu não estou só te xingando (um pouco, sim, rs ), mas também sendo exata, você está trancado na sua bolha particular de estímulos, sem ofício e sem convívio.
Porfírio conta, na Vida de Plotino, que o seu mestre era capaz de conversar com qualquer pessoa que aparecesse sem perder o fio do que estava pensando — ou seja, ele estava presente para si mesmo e para os outros ao mesmo tempo. E foi justamente isso que eu perdi quando passei a ter ódio do barulho de notificação do meu celular, e é isso que eu estou tentando recuperar.
Para recuperar, eu vou lhe passar dois exercícios que vêm dos pitagóricos. O primeiro é feito à noite, antes de dormir, os Versos de Ouro mandam que você repasse o seu dia inteiro fazendo três perguntas, que são: em que eu errei? O que eu fiz? O que eu deveria ter feito e deixei de fazer? O segundo é feito pela manhã, segundo Jâmblico, nenhum pitagórico se levantava da cama antes de se lembrar de tudo o que tinha acontecido no dia anterior, na ordem em que aconteceu. Tentem fazer isso amanhã cedo. Vocês provavelmente vão descobrir que não se lembra nem do que almoçou, e aí vão entender sozinhos o tamanho do estrago, sem que eu precise te chamar de imbecil outra vez.
E leia! Pelo amor que vocês têm aos Deuses de voces!!! Leia uma página por dia de um texto que seja mais difícil do que você, em voz ALTA e com um lápis na mão, por vinte minutos, sem abrir outra aba e sem pegar no celular. Na escola platônica de Atenas, ninguém lia Platão sozinho e correndo; lia-se linha por linha, com o mestre comentando cada trecho, e os comentários de Proclo que chegaram até nós nasceram dessas aulas. A leitura lenta é um treino de atenção e, sem atenção, não existe operação mágica que funcione. E sugiro fortemente que venham estudar comigo!
Agora, sobre o propósito, que foi o que eu prometi. Antes de tudo, tire da sua cabeça essa ideia de propósito como ‘carreira dos sonhos’ ou ‘missão de vida’, pois isso é só mais um produto porccaria que querem lhe vender. Existe uma frase que os platônicos adotaram como a definição da finalidade da vida humana, “tornar-se semelhante ao Deus, tanto quanto for possível”. E no mito de Er, que eu sempre trago como exmeplo de muitas coisas, as almas escolhem a própria vida antes de nascer e ouvem um aviso, “mermão, a responsabilidade é de quem escolhe; o Deus é inocente, não culpe Eles por suas cagadas.” Eu disse lá em cima que há coisas que eu não posso aliviar para você e para mim. Pois bem, Platão também não aliviaria.
Proclo tem um texto curtinho sobre a arte hierática (a arte sacerdotal) no qual ele observa o heliotrópio, aquela flor que gira acompanhando o Sol, e diz que ela está cantando um hino ao seu rei, do jeito que uma planta é capaz de cantar. Para ele, cada coisa que existe no mundo pertence a uma corrente (seirá, em grego) e se volta para o Deus que está na ponta dela, e esse movimento de se voltar tem nome: epistrophé, o retorno. É disso que eu falo quando falo da sua chama de propósito, é aquilo para onde você se vira quando ninguém está puxando a sua atenção. E é por isso que, com a porcaria de uma tela ligada na tua cara dezesseis horas por dia, você nunca vai descobrir o que é, pois está sempre sendo puxado para outro lado. Logo, o silêncio vem primeiro. Fique uma semana com as manhãs limpas e observe para onde a sua cabeça vai sozinha, qual assunto volta, qual Deus volta. E anote tudo.
E a magia de verdade, Maris? Calma, eu não me esqueci dela não. Jâmblico, respondendo a Porfírio no Sobre os Mistérios, diz que o pensamento sozinho não une ninguém aos Deuses; o que une é a execução dos atos sagrados e o poder dos símbolos, que só os Deuses compreendem por inteiro. Neste ponto o mago todo apressadinho comemora, achando que basta fazer o ritual direitinho e ja era. Mas espere aí, pois no mesmo capítulo Jâmblico acrescenta que as melhores disposições da alma e a pureza precisam estar ali antes, como causas auxiliares. Existe até um termo técnico para isso, epitedeiótes, que é a justamente a aptidão do recipiente. Você saberia disso se estudasse comigo, venha logo. Ma s foco aqui, o Proclo fecha a questão nos Elementos, onde os Deuses estão presentes para todas as coisas da mesma maneira, mas nem todas as coisas estão presentes para os Deuses da mesma maneira. Ou seja, o seu ritual que não funcionou quase nunca falhou do lado de lá; falhou do lado de cá.
E como se alarga um recipiente? Com repetição, uai, não há outro jeito. Jâmblico diz que a prática prolongada da prece alimenta o nosso intelecto e torna o receptáculo da alma muito mais amplo para os Deuses.
Prolongada, veja bem, e não de vez em quando, quando dá vontade. Marino conta que Proclo saudava o Sol três vezes por dia, ao nascer, ao meio-dia e ao se pôr, e estamos falando do homem que dirigia a escola de Platão em Atenas, ou seja, alguém que tinha muito mais o que fazer do que você, logo não há desculpinhas para você, não grita.
Portanto, escolha um desses três horários e faça uma prece curta, sempre com as mesmas palavras, antes de encostar no celular, de uma lua nova até a outra, sem falhar um dia sequer.
Eu garanto que não vai ser fácil, pois para mim não está sendo. Mas depois disso, e só depois, a gente conversa sobre grimório.




