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Diego Gomes

Diego Gomes

Lawyer. Dog lover. Writter. Thinker. Observer.

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Feepic from Pixabay

Ninho

12 min read2 days ago

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Era uma bela tarde de outono quando eu descobri o ninho dela. Eu sei que era outono porque sempre adorei as cores dessa estação. Não sei explicar direito, mas as cores do outono me parecem mais equilibradas. Na primavera, a beleza da novidade não nos deixa perceber as cores. Assim, quando chega o verão, terminamos por ser atordoados pelas cores vívidas e intensas.

Por isso sei que era uma tarde de outono. No outono, o sol da tarde bate de lado na árvore do fundo do meu quintal. Particularmente não entendo muito de árvores, mas dessa eu gosto muito. Segundo meu filho mais velho ela é um Oiti, e é típica da nossa região. Não sei. Provavelmente ele está certo. Mas a espécie da árvore não faz muita diferença, para ser sincera. Importa-me que a árvore é bela, me dá uma linda sombra no quintal da casa e ainda me permite pendurar uma das pernas do meu varal de roupas.

Aliás, foi ali que eu a vi pela primeira vez. Ela não me trazia nada de especial quando eu a descobri. Era uma rolinha como todas as outras: de penagem rosa na cabeça, com as demais penas em um tom entre cinza e bege. Na verdade, talvez eu não esteja sendo justa. Ela tinha um traço particular, que eu só notei devido a nossa convivência: ela tinha uma mancha branca em sinal de meia-lua no pescoço. Mas, a primeira vista, não chamava qualquer atenção. Era uma rolinha, parecida com um pombo miniatura e de semblante ainda mais abobado do que o normal.

Pois foi justamente quando eu estava a estender minhas roupas lavadas no varal que eu a conheci. É bastante comum que os pássaros façam ninhos na minha árvore do fundo do quintal, mas essa foi a primeira vez que algum deles o fez dentro da minha cesta de pregadores. E lá estava eu, cuidando da minha vida e meus afazeres, quando coloquei a mão em algo molenga dentro da cestinha de pregadores que eu deixo pendurada no canto do varal. De início tomei um susto, e mais rápido do que eu coloquei a mão, eu a retirei apressada. Quando olhei de novo para o pequeno cesto, notei dois olhos escuros, arregalados, me olhando com medo. Acho que ela tremia. Também… pudera, acho que eu também tremeria se um ser gigante me pegasse com suas enormes mãos. Porém, acho que ela se acalmou ao notar que eu estava mais assustadada do que ela.

"Essa rolinha escolheu meu cesto de pregadores para fazer seu ninho, ora essa", pensei eu. Não vou negar, a primeira coisa que se passou na minha cabeça foi de expulsar essa inquilina penetra. Como eu iria pegar meus pregadores? No entanto, ao olhar para aquele ser tão pequeno e indefeso, eu senti algo. Não sei se foi pena, afeição, ou algum sentimento indefinível no meio desses. Ela só me olhava, ainda meio assustada, com as asinhas abertas sobre o que pareciam ser dois ovinhos. Eu simplesmente a deixei ali.

Resignada, pensei que eu precisava comprar novos pregadores de roupa, afinal o mundo não parava por causa de uma mãe-rolinha. Sai de casa e fui na venda da esquina comprar pregadores. Essa venda pertencia a uma senhora idosa de origem nipônica. Ela era casada com um senhor por mais de 45 anos, mas infelizmente ele falecera há alguns anos. O casal era conhecido por sua afeição aos gatos. Não lembro qual foi a última vez que eu havia visto um gato vadio pelo bairro, pois esse casal tratava logo de adotá-lo. Pode se dizer que a casa deles era um grande abrigo particular desses animais. Na venda dessa senhora , de nome Yamaguchi, havia sempre um gato negro de olhos azuis muito bonito que ficava rondando a loja toda. Ele parecia querer dizer que estava vigiando todos os clientes para que se comportassem na loja de sua senhora. Seu olhar era penetrante e intimidador, apesar de ser só um gato.

Não sei se foi o efeito hipnótico desse gato, mas me peguei com passos acelerados no meio da rua. Por que eu estava correndo para casa? Não entendi de imediato meus instintos, mas logo me dei conta de que os gatos são predadores naturais das rolinhas. Entrei pela porta de casa esbaforida, e fui aos fundos para ver como a pequena estava. Felizmente, ela estava lá sã e salva. Acho que nenhum gato a havia farejado ainda. Ainda.

Meu quintal dava para uma mata no fundo, que subia pelo terreno em aclive, até descer novamente na rua de trás. Isso nunca havia sido um problema para mim, já que o bairro era composto de idosos e sempre foi bem calmo. Mas agora a geografia do meu terreno se mostrou uma ameaça para a integridade da mãe-rolinha. Imagine quantos animais poderiam vir até ali para atacá-la a noite? Talvez um dos gados da Yamaguchi. Talvez aquele gato demoníaco de olhos azuis profundos. Algo deveria ser feito.

Fui até meu armazém e peguei algumas ferramentas que eram do meu filho mais novo. Desde que ele havia se mudado para o sul do país, ele nunca mais tinha usado aquelas ferramentas, então não seria um problema se eu as pegasse emprestado um pouco. Passei o resto daquela tarde bolando uma forma de fazer um forte para aquela rolinha. Mas eu simplesmente não conseguia pensar em nada. Lembrei que meu filho mais velho, que era engenheiro, tinha alguns daqueles blocos grandes onde eles desenham plantas de edifícios, então resolvi ir até seu quarto para buscá-lo e tentar colocar alguma idéia no papel.

Nem sei se eu poderia chamar aquele cômodo de quarto. Meu filho havia saído de casa bem novo. Ele sempre foi muito inteligente. Intelgente e sonhador. Ele sempre quis sair de nossa pequena cidade do interior e conhecer o mundo. Sempre tive a impressão de que a mente dele era muito maior do que esse lugar. Assim, desde os seus dezoito anos que ele não vivia mais naquele quarto. Desde o dia em que ele foi fazer faculdade na capital, a decoração daquele quarto não havia mudado uma vírgula. Obviamente eu trocava as roupas de cama dos antigos quartos dos meus filhos toda semana. Mas fazia isso mais por acúmulo de poeira do que por necessidade em si. Ali estavam os mesmos pôsteres de cidades distantes que ele colava quando era adolescente. O mesmo som estéreo antigo (que eu nem sei se funcionava) ainda habitava impassível sobre o móvel que ficava ao lado da sua escrivaninha. Notei que a sua estanta de livros parecia diferente. Parei de frente a ela a tentei perceber o que havia de diferente. Levei algum tempo até entender que eram as cores. As páginas dos livros estavam ganhando um leve tom amarelado. "Nossa, o tempo passou rápido", pensei. Realmente, ainda podia sentir o cheiro dele naquele quarto.

Encontrei o bloco de papel grande e alguns lápis onde ele guardava o material do colégio, bem ao lado dos bonecos com que ele brincava naquele tempo. Fui para a mesa da cozinha tentar elaborar alguma coisa. Dali eu tinha uma visão direto do fundo do quintal, de modo que eu podia vigiar o ninho. Fiquei algumas boas horas ali sentada, pensando em como proteger a rolinha de predadores. Algumas ideias surgiram, mas eu não consegui chegar a conclusão alguma. Foi nesse momento em que notei algo se mexendo na mata. Fiquei observando atentamente. Me levantei e passei a mão em uma vassoura. Caminhei lentamente até o quintal, como um predador caçando outro. De repente, eu gelei. Eram aqueles olhos. Era aquele gato. Lembro-me de erguer a vassoura e correr como uma louca pelo quintal, gritando (acho que algo como "Ahhhhhhh!"). O gato me viu e se assustou, batendo em retirada sem olhar para trás. Batalha vencida, mas ainda havia uma guerra a ser combatida. Olhei para a mãe-rolinha e ela parecia me agradecer. Como olhinhos tão pequenos podiam dizer tanto?

Como eu iria proteger aquela rolinha? Já estava anoitecendo e eu não sabia o que fazer. Resolvi ligar para o meu filho mais novo. Ele devia estar saindo do trabalho naquele horário.

— Oi, sabe quem é? — perguntei.

— Claro, né,mãe… Que ideia. — respondeu ele em tom de ironia — Mas o que foi? Você nunca me liga em dia de semana.

— É que eu não gosto de incomodar.

— Mãe, você não incomoda. Já te disse para parar com isso. Eu gosto quando você liga. Mas o que aconteceu? Você está bem?

Contei para meu filho mais novo o evento da rolinha e falei da minha preocupação com os predadores noturnos. Depois de rir e debochar de mim, ele me deu uma solução razoável.

— Mãe, por que você não tenta recolher o ninho dela para a sua varanda ? Você pode deixá-lo pendurado no alto, em um daqueles ganchos em que você pendura seus vasos de plantas?

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— Até que essa não é uma má ideia. Mas será que a rolinha não vai se assustar?

— Você só vai saber se tentar.

— Tá bem. Vou tentar…

— Isso… E amanhã me liga para contar. Boa sorte.

Desliguei o telefone e fui tentar essa estratégia. Quando cheguei perto do ninho, notei que a rolinha percebeu logo a minha presença. Diferente da última vez, ela não esboçou qualquer reação de colocar as asinhas sobre os ovinhos. Talvez ela já tenha entendido que eu não sou uma ameaça. Ela apenas me observava com curiosidade. Aproveitei-me desse fato e coloquei a mão no ninho. A rolinha me olhou, mas ela emanava mais dúvida do que susto. Tirei, então, o ninho do varal e trouxe ele pra dentro da varanda, colocando-o em cima da minha mesa de café enquanto arrumava um arame para pendurá-lo novamente entre dois ganchos de vasos de plantas. Com a estrutura fixada, peguei novamente o ninho e coloquei-o pendurado no arame. A rolinha acompanhava tudo impassível, como se analisasse a casa nova. Olhando agora, não parecia mesmo ter sido uma má ideia. Meus filhos realmente eram inteligentes. Senti uma ponta de orgulho deles nesse momento.

Meu filho mais novo havia morado naquela casa mais tempo que o mais velho. Ele não quis fazer faculdade na capital, e por isso acabou vivendo comigo até o fim do curso. Lembro de algumas bebedeiras dele com os amigos naquele quintal. Certa vez, tive que sentá-lo na mesma mesa de café em que eu estava sentada agora e enfiar chá de boldo goela abaixo. Lembro que, nesse dia, ele ficou se lamentando que sentia saudades do irmão mais velho. No fundo, eu também sentia. Uma mãe sempre fica com o coração apertado quando um filho vai embora. Nunca é fácil.

Tendo cumprido a missão do dia, me dei conta que já era tarde da noite. Na minha idade o sono vem mais cedo. Fechei todas as janelas da varanda para impedir a entrada de um gato, e fui dormir.

Na manhã seguinte, fui ver como estava a mãe-rolinha. Ela estava bem. Logo que notou minha presença, ela se levantou. Eu entendi que ela queria ir para fora e abri a janela. Como que tivéssemos combinado, ela içou vôo para fora. Fiquei preocupada com ela, mas me dei conta de que não poderia fazer nada. Aproveitei para verificar os ovos. Estavam intactos e pareciam saudáveis. Fiquei mais tranquila. Afinal, uma mãe não abandonaria dois filhos para trás assim. Resignada, fui me dedicar aos afazeres domésticos.

Foi por volta da hora do almoço que ela retornou, trazia alguma coisa no bico, que eu identifiquei com palha ou resto de galhos secos. Ela estafa tentando colocar o ninho em ordem. Acabei me distraindo com o a rolinha bancando a arquiteta e acabei esquecendo de almoçar. Preparei o arroz com carne a batatas-fritas. Esse era o prato preferido dos meus dois filhos. Sempre que eles vinham do colégio, sentavam na cozinha e faziam uma algazarra sem fim. Sinto falta daquele tempo. Terminei me distraindo com as lembranças e deixei o prato de arroz virar no chão. Olhei aquela bagunça, pensando no tamanho do desperdício. Azar de uns, sorte dos outros. A mãe-rolinha deu um salto do ninho e começou a bicar o arroz espalhado. Bem, pelo menos ela não ia ter que buscar comida lá fora. Talvez fosse uma boa ideia alimentá-la.

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E assim se passaram alguns dias. Eu acordava, alimentava a rolinha na minha varanda. Com o tempo entendi que ela gostava de grãos (arroz cozido e alpiste pareciam ser as preferências dela) e que ela parecia gostar de papear. Não que ela fosse muito falante, mas pelo menos ela era uma excelente ouvinte. Toda tarde eu me sentava ali próxima ao ninho e contava alguma coisa pra ela. Geralmente eram memórias da época em que meus filhos estavam morando comigo e que o pai deles era vivo. Durante esses diálogos com a rolinha, notei quantas memórias eu havia esquecido e que haviam passado naquela casa. Momentos bons e ruins, cuja soma resultou na história da minha vida. Nunca havia ido morar noutra cidade. Casei-me com meu primeiro namorado, que foi o amor da minha vida. Infelizmente ele faleceu enquanto os meninos ainda eram novos e eu tive que criá-los sozinha, sem demonstrar a saudade que eu sentia da minha alma gêmea.

Umas semanas depois, notei a minha amiga rolinha agitada. Era de tarde, e eu tinha acabado de ir buscar cartas no correio. Ela estava se mexendo mais do que o normal, então resolvi ver o que estava acontecendo. Os ovos estavam se abrindo! Era um momento maravilhoso! Pequenas criaturas peladas estavam saindo de dentro deles. A natureza é realmente fantástica. Em alguns instantes, a mãe-rolinha tinha completado a primeira etapa da sua missão. Os dois pequenos tinham sido gerados com saúde. A missão agora era prepará-los para o mundo.

Todo dia eu ligava para meus filhos e contava a eles sobre um novo capítulo da epopéia da rolinha (a quem meu filho mais velho já tinha apelidado de Deméter, que segundo ele era uma deusa-mãe grega). Eu tinha ganhado um smartphone no Natal passado, então eu tirava fotos todos os dias da família recém-formada. Todo dia era como um novo capítulo. Eu protegia aqueles três seres, os alimentava, e eles me pagavam com companhia e sendo bons ouvintes. Os dois "meninos" (que eu jamais soube se eram machos ou fêmas) da rolinha pareciam estar tão acostumados comigo que em seus primeiros vôos foram na minha direção. Nunca pensei que eu me tornaria uma tia de rolinhas na minha vida. Pude acompanhar todo o desenvolvimento daquelas criança-rolinha: comendo o que a mãe mastigava pra eles, crescendo, aprendendo a voar, a cair, a levantar, a buscar comida…

Aqueles dias transcorreram felizes. Eu havia me acostumado a companhia daqueles três seres pequenos. Os meninos começaram crescer bastante. Cresceram tanto que passaram a não caber mais no ninho. Problema facilmente resolvido pela tia, que improvisou duas pequenas almofadas aconchegantes como casas próprias para os jovens solteiros. A mãe rolinha parecia feliz. Seus pequenos olhos negros transpareciam satisfação e uma sensação de dever cumprido.

Um dia os meninos-rolinha sumiram. Eu, como tia responsável, e tremendamente apegada aos filhotes, fiz uma busca por toda a casa e pelo quintal. Logo imaginei o pior. Teria algum gato abocanhado os dois? Não.. isso teria deixado alguma marca de luta. Meus dois sobrinhos teriam lutado, jamais teriam aceitado o destino impassíveis assim. Não havia marcas de luta. Não havia penas espalhadas pelo chão. Nada. O que teria acontecido?

Foi quando me dei conta de que a rolinha mãe me olhava de seu ninho. Calma e surpreendentemente impassível, seus pequeninos olhos pareciam me perguntar porque eu estava tão preocupada. "Ora, minha querida, fiz o meu papel", me dizia ela com seus olhos telepáticos. Então percebi o que devia ter acontecido de fato. Os filhotes cresceram, e seguiram sua vida. "Os meninos seguiram o ciclo da vida. É assim mesmo, não adianta nada ficar triste", me consolava a mãe rolinha. "Mas que tipo de mãe é você, que não se preocupa com suas crias", perguntei indignada. "Minha cara, de que adianta isso? Eu fiz meu melhor e os preparei para o mundo. O resto agora é com eles".

Volta e meia os meninos-rolinha reapareciam. Muitas vezes rondavam o quintal e noutras vezes entravam na minha varanda. Eu os recebia como se fossem família (e talvez fossem).

Minha vida continuou. A da mãe rolinha também, que parece ter se acostumado a minha presença. Ficamos eu e ela, fazendo companhia uma a outra, na rotina de nossas vidas. Ela aceitava meu carinho, eu aceitava sua companhia.

Meus filhos vieram para o Natal. Eles trouxeram suas esposas e filhos, de modo que meus netos puderam conhecer Deméter. "Vovó é mãe de uma rolinha!", disse minha neta mais nova. "Não, querida, vovó é amiga da rolinha. Ela também é mãe, sabia? Ela tem dois meninos que voltam para visitá-la", contei.

Era bom ter as crianças de novo em casa. É melhor ainda ver que eles têm suas próprias crianças. Contemplando a mesa de Natal cheia, com meus meninos e suas famílias, pude entender o quão grande é a sabedoria daquela mãe-rolinha…

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