Sitemap
Guilherme da Natividade Machado

Guilherme da Natividade Machado

★Gaúcho, escritor de esquerda, bacharel em Ciências Sociais pela UFRGS, torcedor do Grêmio FBPA e da Seleção Argentina, ateu militante e neurodivergente (TEA).

14 min readJun 15, 2024

--

O CASO DOS SUPOSTOS “EX-ATEUS”: O FALSO DEBATE E O DELÍRIO COLETIVO

Por Guilherme Natividade

Tenho o costume de dizer que só há uma única maneira de eu deixar de ser ateu: alguém provar empiricamente a existência de algum deus, de forma concreta, expositiva e completamente irrefutável. Sem evidências científicas que atestem efetivamente que alguma divindade realmente exista, não há absolutamente nada que faça com que eu deixe de crer na inexistência divina, enquanto ateu positivo. Sou um livre-pensador ateísta convicto e orgulhoso demais para abdicar da minha posição filosófica, da minha liberdade e da minha evolução social enquanto indivíduo emancipado do sistema doutrinário teísta/religioso.

Porém, se algum estudo científico fosse, hipoteticamente (não creio nessa possibilidade, visto que acredito que deus algum é real), capaz de comprovar sem sombra de dúvidas a existência de uma entidade inteligente superior, criadora do cosmos, da natureza e dos seres vivos que nela habitam, por coerência, eu até poderia abandonar minha identidade ateísta. Mas jamais, em hipótese alguma, me tornaria um teísta/religioso. Sendo deus um fato hipoteticamente evidente e comprovado de maneira concreta, expositiva e irrefutável, não faria sentido algum manter uma posição de crer na ausência ou duvidar/negar a existência, descartando-se completamente o ateísmo. Do mesmo modo, a partir da tomada do conhecimento através da ciência e de seus métodos, não seria mais preciso ter fé em algo que seria um fato absoluto, não mais abstrato, descartando-se igualmente o teísmo. As evidências empíricas da existência de uma deidade implicariam em um estado permanente de gnose universal que, exceto para os negacionistas científicos, dispensariam as necessidades de crença e descrença em algo que antes fora uma mera suposição metafísica.

Portanto, eu, particularmente, poderia ser um “anticristo” ou “antiteo”, digamos assim. Não havendo mais necessidades de crer ou não em um deus — que seria um fato evidente e absoluto — , eu teria aversão a uma divindade que, mesmo sendo onipotente, não acaba com o mal, as injustiças, as desigualdades e o sofrimento no mundo, mostrando ser uma entidade injusta e maléfica. Ou então eu seria indiferente a uma deidade que, não detendo a característica da onipotência, não possui poder suficiente para acabar com o mal, as injustiças, as desigualdades e o sofrimento no mundo, mostrando ser uma entidade inútil e irrelevante perante os acasos do Universo e da humanidade, como compreende o deísmo. Ainda que, nesse contexto, haveria um paradoxo ontológico no caso de um ser não-omni, isto é, que não possui máxima grandeza, não detenha razões e necessidades específicas para existir, nem sequer possibilidades de criar o espaço-tempo e toda a realidade natural e material.

Em resumo, não faz o menor sentido deixar de ser ateísta e passar a adorar e louvar um deus que não interfere no mundo físico porque não quer (por não ser justo e bondoso) ou porque é incapaz (por não ser todo-poderoso). Se algo ou alguém fosse capaz de atestar um elemento impossível de ser submetido a testes (como é o caso da hipótese divina), não há lógica alguma em revogar o ateísmo libertador e transformador para se submeter aos caprichos de uma hipotética entidade tirana e malévola ou, na melhor das hipóteses, inútil e indiferente à realidade em que vivemos. A filosofia ateísta poderia até ser abdicada nesse contexto, mas jamais trocada por um sistema de adoração irracional, não havendo nada que justifique e embase uma possível conversão.

Mas essa suposição trata-se de um mísero cenário de mundo hipotético. Na realidade objetiva, não há uma única prova que evidencie concretamente que existe algum deus ou um conjunto de deuses. Nada, nem mínimos e válidos indícios. Tudo o que há são meros pressupostos de prévias teorizações teístas, pregações religiosas de livros considerados “sagrados”, “evidências” anedóticas sobrenaturalistas do senso comum e crendices mitológicas sem qualquer respaldo científico. Há também pseudociências que, a partir de alegações sem fundamentos, fingem corroborar com uma hipótese que não pode sequer ser testável, não apresenta dados e amostras e, consequentemente, não se constitui como um fato empírico. E a falta de evidências extraordinárias para essas alegações igualmente extraordinárias são o que evidenciam, por lógica, a improbabilidade, a insuficiência, a inexistência divina.

Assim sendo, por que existem pessoas que renunciam deliberadamente ao ateísmo e à liberdade de pensamento, mesmo sem haver provas da existência de deus que fundamentem essa repentina conversão? Qual a lógica por trás dos tais “ex-ateus”? E o que faz com que alguém questione um estado racional de conclusão do óbvio?

Primeiramente, percebo que tudo parte integralmente de uma concepção particular quanto à identidade ateísta de cada indivíduo. A maioria dentre essa comunidade social e numericamente minoritária não compreende o ateísmo como ele é de fato, filosoficamente falando: uma concepção de mundo contra-hegemônica. Boa parte da população ateia mantém seu ateísmo limitado à vida privada e concentrado fora do exercício de uma militância identitária ativa. O perfil ateísta de boa parte dos ateus e das ateias de todo o planeta tende a ser afastado de uma posição ativista e próximo a uma noção bastante reduzida e superficial, que restringe o ateísmo a uma mera dicotomia entre crer na ausência (ateísmo forte/positivo) ou duvidar da existência (ateísmo fraco/negativo), sem conter uma ampla visão de mundo político-ideológica.

Quem reduz o ateísmo a uma compreensão limitada de meramente “não crer em deus(es) e não possuir religião” é incapaz de se libertar efetivamente do sistema religioso nefasto e evoluir socialmente a partir do livre-pensamento. Não compreender e não absorver o ateísmo como uma concepção sólida sobre a realidade, que provê a liberdade e a transformação, impossibilita a fundamentação de uma posição ativa, convicta e orgulhosa, passível de sustentação. Essa visão passiva e superficial sobre a filosofia de vida ateia, centrada no existencialismo, resulta no afastamento do indivíduo perante à ideologia ateísta, ao humanismo secular e ao racionalismo, estando este suscetível às investidas dominantes e doutrinárias do hegemônico cristianismo cultural. Portanto, quem limita o ateísmo a uma descrença pessoal pura e simples, abrindo mão de um ativismo ateu e de uma posição filosófica positiva, é na verdade um teísta/cristão cultural que serve aos interesses políticos e sócio-culturais do sistema religioso hegemônico e de seu plano global de dominação e doutrinação que viola a laicidade constitucional, em conformidade com as doutrinas que tanto diz não seguir e acreditar.

Por outro lado, há casos de indivíduos que não apenas limitam seu ateísmo a uma espécie de particularidade retraída, mas também deturpam a real essência ateísta, que é genuinamente progressista. Muitos pseudos-ateus, que sustentam seu suposto “ateísmo” a partir de um sentimento de revolta moral contra as religiões, as divindades e a sociedade em geral, cultivam um ódio sistemático aos deuses e aos dogmas, manifestando um raso estado de ressentimento que fundamenta essa posição pseudo-ateísta. Esses agentes, na verdade, não possuem factualmente uma descrença profunda em divindades; cultuando, inclusive, ideais e pensamentos conservadores, tradicionalistas e fundamentalistas. Eles podem até se rebelar contra o sistema religioso dominante, de maneira pragmática, mas jamais colocam em dúvida de fato a existência divina ou questionam as tradições morais e culturais da religião. Os que se dizem “odiar deus”, com raiva, por “modinha”, ou que se identificam como conservadores e defensores de políticas arcaicas de costumes familiares tradicionais, nunca compreenderam o ateísmo como uma ideologia essencialmente progressista, revolucionária e contra-hegemônica, no sentido positivo da expressão.

É importante frisar o óbvio: o ateísmo não parte de uma revolta contra deuses, que não existem e que não acreditamos. Não se pode odiar ou sentir raiva, mágoa ou rancor de algo irreal, invisível e imaginário. Podemos sim desprezar o sistema religioso que atenta contra os princípios-bases da laicidade do Estado, as instituições de viés teísta e as lideranças religiosas que impõem essas doutrinas irracionais culturalmente, mas jamais seus mitos abstratos. Por isso não se pode dar esse sentido negativo ao ateísmo, deturpando-o para fins estritamente obscurantistas. O ateísmo, no mínimo, pode se sustentar através de uma conclusão do óbvio, mas jamais retroceder a uma posição meramente niilista, dúbia ou conservadora. Quem diz odiar ou sentir raiva de algum deus, por ser revoltado com a vida e o mundo, como um rebelde sem causa, nunca foi um ateísta de fato, mas no máximo um irreligioso desiludido que se serve do ateísmo e colabora circunstancialmente com seus ideais filosóficos.

Ambos os casos representam um “ateísmo” sem bases de sustentação, principalmente teóricas. Tanto os cristãos culturais quanto os pseudos-ateístas são suscetíveis aos mecanismos de doutrinação proliferados pelo cristianismo cultural, visto que nunca consolidaram uma posição e uma concepção coerente e sólida para com a filosofia ateia. Por isso virou “moda” surgirem indivíduos se dizendo “ex-ateus” e que renunciaram à sua liberdade, involuíram socialmente e traíram a real comunidade ateísta. Esses maus exemplos, suscetíveis, fracos, influenciáveis e, portanto, passíveis de conversões infundadas, estão sistematicamente sujeitos aos métodos de doutrinação estrutural e institucional, abandonando o processo de libertação, transformação e evolução em prol de guerras político-ideológicas e civilizacionais ou de conceitos retrógrados de família, moralidade e costumes.

Get Guilherme da Natividade Machado’s stories in your inbox

Join Medium for free to get updates from this writer.

Contudo, retroceder nunca é uma alternativa. Um ateísta pode até suavizar seu ativismo, abrir mão do radicalismo antiteísta, moderar-se secularmente e abandonar sua posição militante. Mudanças assim são normais e fazem parte do processo individual de cada um. Mas romper definitivamente com o ateísmo, de maneira radical, é inaceitável. Uma coisa é uma leve e por vezes passageira crise de identidade e representatividade que faça com que um ateu abandone a militância ateísta e siga sua vida afastado da comunidade ativista, ainda que mantendo socialmente sua identidade incrédula de forma convicta e orgulhosa. Outra coisa é renunciar drasticamente ao ateísmo sem quaisquer razões existenciais que fundamentem empiricamente esse abandono da causa e da ideologia, passando a crer no sobrenaturalismo, a praticar rituais religiosos e a absorver concepções reacionárias repentinamente. Não existe lógica em, sem evidências, passar a acreditar em fantasias que por muito tempo não se acreditou justamente pela falta de meros indícios e coerências, “virando a casaca” em meio a um cenário que permanece completamente inalterado e repleto de hipocrisias e contradições.

É primordial destacar que um ateísta que se preze não apenas duvida/não acredita na existência de deus(es) ou crê na inexistência de divindades, bem como não segue religião alguma. Um ateísta factual, convicto e orgulhoso, além de conceber o ateísmo como uma concepção de mundo e uma filosofia de vida, rejeita a moral e a ética religiosa, absorve a ética secular e os princípios do humanismo secularista, despreza a espiritualidade como bom naturalista-materialista, defende um Estado radicalmente laico, enfrenta a ateofobia institucional e combate o sistema religioso hegemônico. Qualquer identidade fora dessa cartilha padrão é basicamente um ateísmo de ocasião, oportunista ou reprimido, mas jamais ateísta de verdade. Por isso alguns se sujeitam à traição e à rendição à cultura dominante.

Há quem possa alegar que o ateísta vive em risco, não tendo nada a ganhar se estiver certo e tendo tudo a perder no caso de estar errado. Pode até ser, assim como muitos religiosos podem ter muito a perder se a sua religião não for a verdadeira e o seu deus não for o único e correto. Mas isso pouco nos importa. A vida é feita e recheada de riscos a todo instante. Quem deseja evitar correr riscos nem sai de casa, mesmo estando sujeito a algo ocasional dentro dela. E nós, livres-pensadores ateístas de verdade, autossuficientes e que não temem o irreal, não queremos simplesmente estar certos, nem mesmo acreditar por acreditar, a fim de evitar possíveis riscos sobrenaturais. Queremos saber, buscar atingir o conhecimento e viver a realidade em que estamos inseridos sem se preocupar com uma suposta vida após a morte. Por isso aproveitamos a vida o máximo possível, dando sentidos subjetivos a ela e curtindo um dia de cada vez ao lado de nossos entes queridos. Quem vive com medo, pensando permanentemente no fim, não é capaz de construir nada que efetivamente fundamente sua razão.

Mas voltemos especificamente ao caso dos supostos “ex-ateus”.

Recentemente, um ato simbólico de traição ao ateísmo e, principalmente, ao movimento e à comunidade ateísta mundial foi a da agora dita “ex-ateia” Ayaan Hirsi Ali, em novembro de 2023. A traidora, que até pouco tempo era considerada a quinta “cavaleira do novo ateísmo” (juntamente aos britânicos Christopher Hitchens e Richard Dawkins e aos estudunidenses Sam Harris e Daniel Dennett), publicou um texto onde assumiu ter se convertido ao cristianismo em prol de uma “guerra civilizacional” em defesa do Ocidente contra o Oriente árabe e muçulmano. Ocorre que essa renúncia de Hirsi Ali à liberdade e à evolução pelo livre-pensamento converge com sua historiografia mascarada, que sempre fora muito mais atrelada com a justa e importante luta anti-islâmica do que com um ativismo ateísta propriamente dito. A agora “ex-ateia” somaliana, que vive há décadas nos Estados Unidos, nunca foi uma ateísta tão convicta e orgulhosa, mas sim uma combatente do islamismo cultural que apenas se aproveitou da ascensão do movimento neoateísta para enfrentar o islã que tanto a oprimiu desde sua infância na Somália. Quando o ateísmo deixou de interessar à sua guerra civilizacional contra o Oriente e as políticas identitárias (pautas progressistas), Hirsi Ali, suscetível ao sistema religioso hegemônico do mundo ocidental, pôde ser efetivamente doutrinada pelo cristianismo cultural, servindo, assim, aos seus interesses e ao seu plano de dominação global. Em resumo, a somaliana traiu o movimento e a comunidade ateísta — principalmente feminista — que a teve como referência, subverteu sua militância em defesa dos direitos das mulheres árabes e se rendeu à mitologia cristã para lutar contra uma religião opressora (islamismo), a partir da posição etnocêntrica de outra doutrina tão tirana quanto (cristianismo). Sua breve militância ateísta nunca foi efetivamente em prol do ateísmo e da laicidade, mas sim dos valores tradicionais ocidentais, que são embasados pelos princípios conservadores e fundamentalistas da fé cristã, a qual fere as bases laicistas. Agora, Hirsi Ali não combate ambas as religiões abraâmicas a partir de uma coerente perspectiva humanista-secular, mas enfrenta as atrocidades cometidas pela mitologia terrorista islâmica no mundo oriental com os ideais e as concepções de sua ideologia irmã — a que mais matou na história da humanidade.

Abordo mais detalhadamente este caso no artigo Sobre a conversão de Hirsi Ali, onde analiso sua inaceitável traição e rendição.

Outros dois traidores e rendidos notórios são William Joseph Murray, filho da combativa ativista ateísta Madalyn Murray O’Hair, e Alister McGrath, autor do livro The Dawkins Delusion? Atheist Fundamentalism and the Denial of the Divine (O Delírio de Dawkins? Fundamentalismo Ateísta e a Negação do Divino) — publicado em 2007, em resposta aos argumentos da obra The God Delusion (Deus, um Delírio), do biólogo ateu Richard Dawkins. William, também conhecido como Bill Murray, foi sistematicamente doutrinado ao cristianismo na década de 1980, quase vinte anos após sua mãe ter fundado a associação American Atheists (1963). Sua rendição simbolizou uma séria traição às lutas e à história de Madalyn O’Hair, que enfrentou o cristianismo cultural nos EUA, defendeu o Estado laico e conquistou a vitória secularista que pôs fim às leituras bíblicas e orações obrigatórias nas escolas públicas do país em 1963. A batalha judicial que chegou à Suprema Corte estadunidense e ficou conhecida como o caso Murray vs. Curlett teve como estopim o próprio Bill, que, aos 14 anos de idade, estudava em uma escola pública no município de Baltimore, estado de Maryland, a qual obrigava seus alunos a rezarem e recitarem versículos da Bíblia antes do início das aulas, tendo sido devidamente processada por Madalyn. Atualmente, William é um ministro batista e ultraconservador que diz socorrer cristãos supostamente “perseguidos” e que promove a doutrinação sistemática a qual foi submetido na infância e salvo por sua progenitora.

Abordo mais detalhadamente a trajetória de Madalyn O’Hair, “a mulher mais odiada da América”, no artigo Discípulos de O’Hair, onde exaltei suas contribuições ao movimento ateísta mundial e propus que sua luta sirva de inspiração aos novos ateus do século XXI.

Já McGrath é um caso à parte. Ateu até determinado período de sua vida, o agora professor de Teologia se converteu à fé cristã e tornou-se um apologista crítico ao neoateísmo e opositor às obras do evolucionista darwinista Richard Dawkins. Defensor do chamado “Criacionismo Evolucionário” (pseudociência), McGrath é um pastor e teólogo cristão que serve aos interesses do cristianismo cultural, propagando discursos ateofóbicos e tentando refutar o ateísmo — que ele considera uma “fé fundamentalista” — e seus adeptos (como se isso fosse meramente possível).

Há ainda outros desvirtuados pelo ambiente digital que foram suscetíveis ao processo cristão de doutrinação e dominação e que agora se dizem “ex-ateístas”, colocando-se supostamente como “testemunhas” da eficácia da fé e se opondo ao livre-pensamento. No Brasil, em especial, há um popularmente conhecido como “frango sujo” que tenta (sem sucesso) refutar o ateísmo na Internet, bem como uma moça que recentemente foi doutrinada pelo próprio pai, que é pastor, justificando sua conversão a partir de conceitos ultrapassados de “família tradicional” que só a religião é capaz de conceber e sustentar. Porém, dada a irrelevância tanto do coxinha quanto da escravizada pelo patriarcado, filha de sonegador de impostos, não vale a pena citá-los nominalmente junto dos demais anteriormente descritos. Quem é ateísta de verdade e pertence à comunidade ativista virtual sabe de quem se trata e reconhece as traições imperdoáveis.

Mas enfim, o que todos esses traidores da causa ateísta têm em comum (incluindo os brasileiros inomináveis)? Basicamente, nenhum jamais foi ateísta de verdade, com convicção e orgulho. A mascarada Hirsi Ali utilizou-se do movimento e da filosofia ateia para se libertar provisoriamente do sistema religioso e combater o islamismo cultural. Assim que o ateísmo deixou de servir aos seus propósitos civilizacionais, que passaram a ser prioridade, Ayaan renunciou à sua liberdade e se rendeu ao cristianismo ocidental para seguir com sua luta estritamente anti-islâmica e, por vezes, até xenofóbica com o povo árabe. Bill Murray, por sua vez, traiu mais do que a comunidade ateísta como um todo, mas o legado e a honra de sua própria mãe, que faleceu com profundo desgosto da rendição de seu primogênito ao cristianismo cultural. Após Madalyn ter dedicado sua vida para preservar a laicidade constitucional nos EUA, defender as liberdades democráticas das crianças e dos adolescentes e impedir que seu primeiro filho fosse doutrinado em sala de aula, a retribuição de William foi uma rendição abjeta que nem sua própria filha, neta de O’Hair, conseguiu aceitar, apoiar ou mesmo perdoar (Robin Murray O’Hair foi sequestrada e assassinada junto à avó em 1995). Já McGrath é a caricatura de um pseudo-ateu de ocasião que renunciou à liberdade que um dia teve para se dedicar a combater o ateísmo provedor da libertação e da transformação, tentando comparar a filosofia ateísta ao cruel fundamentalismo religioso. Alister é basicamente um amargurado ressentido que inveja o potencial e o alcance de Richard Dawkins e suas obras.

Além disso, há uma outra semelhança um tanto curiosa entre os três: nem Hirsi Ali, nem Bill Murray, nem McGrath renunciaram ao ateísmo a partir de uma prova empírica da existência de deus — como citei no início deste artigo. Os dois últimos bem que tentam encontrar algo, mas falham miseravelmente em suas meras pregações alienantes. Apesar de tudo, nenhum dito “ex-ateu” é capaz de sustentar sua conversão através de uma evidência científica que ateste efetiva e concretamente suas novas alegações de cunho teísta. Todos, sem exceção, se venderam basicamente por puro oportunismo ideológico, bem como ingratidão, fraqueza, revolta ou pânico moral. Jamais foram ateístas de factuais, como deveriam ser, e, por conta disso, não fazem a mínima falta ao movimento composto por aqueles que dedicam uma das razões de suas vidas pelo que compreendem ser sua consistente concepção de mundo antissistêmica.

Portanto, que fique claro, de uma vez por todas, que não existem “ex-ateus”. O que existem são traidores, oportunistas, rendidos, vendidos, cristãos culturais e pseudos-ateus que, na realidade, sempre serviram, de certa forma, ao cristianismo cultural, absorvendo as tradições cristãs como parte de uma cultura e/ou de uma identidade nacional e restringindo o ateísmo às suas individualidades e/ou aos seus interesses pessoais. Particularmente, me considero um ateu em relação aos supostos “ex-ateus”. Defendo que a traição ao movimento e à comunidade ateísta e a rendição ao sistema religioso que tanto combatemos sejam cobradas por todos os ateus militantes, através de redes orgânicas de cancelamentos digitais que expurguem todos os ditos “ex-ateístas” de nosso meio, refutando-os, isolando-os da coletividade e desmoralizando suas falácias pseudo-moralistas e irracionais. Todos deverão servir de exemplo do que não ser e fazer, não sendo mais bem-vindos ou aceitos de volta ao livre-pensamento e à razão, que é apropriada somente por quem se emancipa integralmente da fé religiosa.

Muito se fala sobre os “falsos cristãos”, mas pouco se aborda sobre os falsos ateus. Os supostos “ex-ateus” devem entender que não se pode servir-se do ateísmo e simplesmente abandonar a causa e o movimento, renunciando à liberdade de pensamento e ao senso crítico, involuindo socialmente e regressando ao estágio de doutrinação sócio-cultural que domina e corrompe a humanidade por séculos, através da cultura religiosa que controla e detém o capital político e econômico. O ateísta de fato, que é ateu do jeito certo, permanece a vida inteira firme, convicto e enraizado às conclusões lógicas e racionais que possibilitaram sua libertação do aprisionamento religioso e sua transformação enquanto indivíduo. Qualquer coisa diferente disso não passa de um falso debate moralista e um delírio coletivo por parte daqueles que, irracionalmente, traíram a si mesmos.

--

--

Guilherme da Natividade Machado
Guilherme da Natividade Machado

Written by Guilherme da Natividade Machado

★Gaúcho, escritor de esquerda, bacharel em Ciências Sociais pela UFRGS, torcedor do Grêmio FBPA e da Seleção Argentina, ateu militante e neurodivergente (TEA).