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Luana Moraes

Luana Moraes

Sou Head de Conteúdo Digital do Paladar – Estadão, e falo sobre comunicação digital, liderança, transformação e o futuro do jornalismo multiplataforma.

O “furo” jornalístico ainda importa na era digital?

4 min readOct 23, 2025
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Não sei se você é dessa época, certamente o que vou falar agora fará mais sentido para uns do que para outros, mas teve um tempo que “ser o primeiro” era o desejo maior de um veículo jornalístico, especialmente se o tema fosse “quente”.

Era o FURO, a notícia que chegava antes das outras e dominava sozinha até o dia seguinte. No impresso, a exclusividade tinha peso porque os furos eram intocáveis. Uma glória, sem dúvida.

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Na era digital, pioneirismo dura pouco, às vezes, minutos. O furo virou um instante que se dissolve no feed.

Num piscar de olhos, outros veículos replicam, ampliam, aprofundam ou distorcem a mesma pauta. Minutos separam publicações, e algoritmos decidem alcance, relevância e autoridade.

Então será que ser o primeiro continua sendo tão pertinente?

E não já há absolutamente nenhuma garantia de que chegar na frente signifique ser o mais visto. Google e redes sociais priorizam engajamento, clareza, confiabilidade e formato, não necessariamente o fato de ser o primeiro a trazer o tema. Suas chances de levar uma notícia para mais gente, dependem (e muito) de um trabalho contínuo de relevância digital.

Bem antes de qualquer ‘furo’ ou ‘exclusiva’, é preciso entender que não trabalhamos mais em canais físicos. Hoje, conteúdos viajam sem fronteiras, o tempo é líquido, e o valor está na acuidade, não na hora exata de chegada.

É preciso consistência e coerência com a LÓGICA DIGITAL.

Na teoria, tudo certo. Vivemos todos o mesmo momento, celulares e computadores confiscam nossa atenção o tempo inteiro e nos atualizam do que está acontecendo, mesmo quando não perguntamos. Sabemos exatamente como a coisa funciona.

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Mas na prática, tudo fica mais confuso. Há uma silenciosa luta de perspectivas e valores em curso, e poucos admitem isso (para si e para os outros). Profissionais “mais antigos” (por falta de expressão melhor, até porque isso não diz respeito à idade necessariamente) foram condicionados a buscar o furo e a matéria exclusiva.

Mas não só isso. Eles reconhecem também a importância de se observar a veracidade dos fatos, a profundidade das informações, o equilíbrio, o contraditório, a isenção. Gerações de profissionais adquiriram excelência em lidar com todos esses fatores. Agora o jogo muda, mas a perspectiva permanece. Por um lado, isso é bom, por outro, muito ruim.

No meu mundo, vejo todos os dias repórteres nervosos porque algum veículo deu a pauta antes deles, perguntando: “você acha que ainda vale a pena publicar?”

Vida Real

Lembro, por exemplo, do dia em que uma profissional competentíssima estava cobrindo um evento fora do Brasil. Pressionada não apenas pela tarefa de apurar, escrever, editar, fazer fotos e vídeos, ela ainda entrou numa peleja insana contra o relógio que, no caso, caminhava horas na frente do nosso.

Dedicada, ela escreveu o texto, mandou o vídeo e… errou uma informação. O pânico virou senhor da situação! Matéria no site, post nas redes. E agora?

Veja, não digo que não foi uma situação ruim, mas estávamos falando do digital. Corrigir a matéria levou segundos, admitir o erro e refazer o post, uns minutos a mais.

Observando friamente a situação, qual era realmente o ponto? Na minha opinião, a visão nativa do impresso. Que diferença faria de verdade se ela tivesse gasto 30 minutos ou mesmo uma hora a mais para dar o conteúdo? A resposta tem mais a ver com o trabalho feito diariamente de manter a relevância digital de nossos canais do que qualquer outra coisa. E para segurar engajamento, ter grande alcance, o que era necessário? O conteúdo em si, profundidade, contexto e tom de voz correto para a audiência em questão.

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O furo ainda impressiona, claro. Especialmente se o assunto for quente, ele deve ser buscado sim. Mas o que realmente sustenta uma marca jornalística hoje é equilíbrio entre velocidade e qualidade e, acima de tudo, a relação contínua com o público. É o contexto, a curadoria e a credibilidade em incessante movimento.

No fim das contas, na maior parte do tempo, furo é uma cereja no bolo, e talvez a pergunta certa não seja “quem publicou primeiro?”, mas “quem contou melhor a história que valia a pena ser contada?”

Luana Moraes é Head de Conteúdo Digital do Paladar — Estadão. Especialista em comunicação digital, escreve sobre liderança, transformação e o futuro do jornalismo multiplataforma.

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Sou Head de Conteúdo Digital do Paladar – Estadão, e falo sobre comunicação digital, liderança, transformação e o futuro do jornalismo multiplataforma.