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Lucas Andrade

Lucas Andrade

Cartas a um futuro esperançoso

3 min readSep 1, 2026

Algumas experiências nascem para moldar o homem?

A psicologia reconhece que muitas marcas da infância influenciam diretamente a formação do homem. Aquilo que ele vive, sente, perde ou aprende nos primeiros anos de sua existência deixa raízes profundas em sua maneira de enxergar o mundo, os outros e a si mesmo.

Esse argumento se torna ainda mais claro quando percebemos que certos traumas do passado continuam afetando o presente. O homem, muitas vezes sem perceber, carrega dentro de si imagens, medos e dores que não nasceram no agora, mas que seguem conduzindo suas escolhas, seus sentimentos e até sua forma de amar.

Vivemos em um período em que a depressão é constantemente chamada de doença do século. Porém, mais perigoso do que a própria dor é a romantização dela, quando o sofrimento passa a ser visto quase como uma identidade. A depressão afunda o homem em um mar de sentimentos mal curados, fazendo com que ele deixe de reconhecer seu próprio valor.

Para que possa enxergar esse valor novamente, o homem precisa, antes de tudo, reconstruí-lo dentro de sua própria consciência. Precisa compreender que ainda é capaz. Precisa reencontrar em si mesmo não apenas uma razão para continuar, mas uma vontade real de viver.

A construção desse valor deve começar pela própria vida, pois ela é a base de toda existência.

Nietzsche, em Assim Falou Zaratustra, ressalta a importância dos valores para o homem. Um homem sem valores talvez ainda respire, mas já perdeu parte daquilo que o mantém vivo por dentro. O grande ponto, então, não é apenas possuir valores, mas compreender como eles são formados, quais devem permanecer e quais precisam ser transformados.

Tendo em vista que a experiência pode transformar o homem, é natural que seus valores mudem no decorrer da vida. Entretanto, nem todos os valores são dignos de mudança. Existem valores que devem ser preservados, pois são eles que sustentam a estrutura mais profunda do ser.

A esses valores podemos dar o nome de valores primordiais.

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Um homem que respeita sua família, por exemplo, e a coloca como prioridade em sua vida, carrega um valor que pode ter nascido ainda em sua formação inicial. Esse valor não depende apenas do carinho externo de alguém, mas de uma vivência construída ao longo da infância, do convívio e das primeiras experiências afetivas. Ele nasce antes mesmo que o homem tenha plena consciência de sua importância.

No entanto, existem também aqueles que só aprendem a amar, respeitar ou priorizar certas coisas depois da vida adulta. Para isso, é necessária maturidade. E maturidade não é apenas envelhecer; é perceber que algo dentro de si precisa mudar.

A mudança, porém, exige compreensão. Compreensão para entender que transformar-se é um processo. Às vezes rápido, mas, na maioria das vezes, lento, silencioso e doloroso. A esse tipo de valor, que nasce não da origem do homem, mas da sua capacidade de amadurecer, podemos chamar de valor construído.

Também existem momentos na vida em que o homem se perde dentro do próprio mundo. Uma decepção, uma perda, um acontecimento inesperado ou qualquer carga emocional forte pode fazê-lo buscar uma razão para aquilo que viveu.

Essa busca pela razão pode não ter fim. Ela pode empurrar o homem para dentro de si mesmo, fazendo-o procurar respostas não apenas no mundo externo, mas também nos elementos mais escondidos de seu mundo interior.

Um ser em queda busca se apoiar no primeiro lugar que encontra. Porém, nem todo apoio é seguro. Nem tudo que parece salvar realmente salva. Às vezes, aquilo que o homem encontra no meio da dor apenas o mantém de pé por um momento, mas não o reconstrói de verdade.

Um exemplo disso é o homem que precisa lidar com uma perda. Inicialmente vêm a dor, a falta, a raiva, a inconformidade e tantas outras emoções que parecem tomar conta de tudo. Ele tenta encontrar conforto. Tenta entender a razão daquilo. Tenta transformar a perda em algo compreensível.

Por fim, pode chegar à conclusão de que aquilo foi apenas um acaso da vida. Algo que aconteceu, mas que não necessariamente precisava acontecer. Porém, mesmo quando não encontra uma resposta clara, o homem pode encontrar uma transformação.

Buscar a razão é um caminho. Não porque a razão sempre explique tudo, mas porque ela dá ao homem uma direção. Ela o tira da posição de vítima do acontecimento e o coloca diante da possibilidade de atribuir sentido ao que viveu.

A esse tipo de valor, que nasce mediante uma condição, uma dor ou uma experiência marcante, podemos chamar de valor condicionado.

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