À espera do Ex Machina do Deus Trino
Uma reflexão em Lucas 1.5–20 para o Advento
Caminho e Providência: Quando o Soberano Deus intervém
Engraçado como certas coisas nas nossas vidas cotidianas ocorrem e nos dão a impressão de que, de fato, era pra ser assim mesmo. Não estou entrando no mérito de fazer uma análise teológico-filosófica da predestinação e presciência divina, mas no empirismo que essas manifestações tomam em nossas vidas. Às vezes, no traçado, parece que Deus não está lá, contudo, acontece algo que deixa claro como as águas de Alter do Chão, a sua mão nos segurando em todo tempo. Com isso, buscando um termo que definisse essa sensação, me lembrei do termo do teatro Deus Ex Machina. Onde, um acontecimento pontual ocorre e afeta totalmente o enredo até então desenvolvido. Tendo em vista que trata-se de uma intervenção que não apenas resolve situações aparentemente insolúveis, mas também, como aponta Diego Cardoso, do Teatro Sem Cortinas — UNESP, “[…] [tem a] função de deslindar mistérios, revelar assuntos desconhecidos, passados ou que precisam vir à tona […]”. Sendo assim, pego emprestado a alusão da “imaginação teodramática” de Kevin J. Vanhoozer em “O Drama da Doutrina”, e contemplo o mundo e sua história como palco para a maior reviravolta da história: Deus entrando em cena.
Deus Ex Machina e nossa participação na narrativa divina
Ponderando sobre as implicações, na minha imaginação, sempre achei que Deus agindo era sinônimo de grandes demonstrações de poder ou milagres. Embora essas coisas, de fato, aconteçam, em outros momentos onde não fica claro e não há “grandeza” aos nossos olhos, Deus também está, poderosamente, agindo. Na verdade, das experiências que tenho vivido como também escutado de outros amigos, nosso Senhor, pelo menos de forma aparente, prefere conviver conosco na vida pacata e cotidiana do que nos grandes feitos de sua glória. A sua constância é a humildade, talvez, por isso, no decorrer de toda a sua palavra, a engrandeça por demais (Pv 22.4; Mt 5.3–12; Mt 11.29–30; Lc 14.11; Cl 3.12; Ef 4.2; Tg 3.13; 1Pe 5.5–8). Nosso Deus é humilde e na constância do cotidiano, “deslinda mistérios, revela assuntos desconhecidos, passados ou que precisam vir à tona”. Atuando conosco no palco da vida ordinária, opera em nós e através de nós esse elemento (Ex Machina) para mudar realidades e arcos.
Dito isso, a princípio, com a definição prática do termo, notei que algumas vezes, nas mãos de Deus, fui esse mecanismo sem sequer me dar conta no momento. Como também, vi pessoas sendo esse mecanismo narrativo na história de Deus para a manifestação de sua vontade. Para exemplificar, lá no início da pandemia, fiquei doente. Tive bronquite e precisei me dirigir ao hospital. Fui até lá com bastante dificuldade de respirar, temeroso que fosse Covid. No entanto, chegando, nos deparamos com uma médica que, mesmo de máscara, parecia estar mais doente e cansada do que eu. Tal, me mandou à enfermaria para tomar alguns remédios e ao raio-x para analisar os meus pulmões.
Estando na enfermaria, alguns minutos depois, encontramos a moça que me atendeu, ao meu lado, tomando soro e dizendo que ainda voltaria ao atendimento. Ela acabou saindo antes de mim. Quando terminamos tudo, as dores e o cansaço tinham sumido, como se antes eu nem estivesse doente. Voltamos ao atendimento e lá está ela. Minha mãe se sente incomodada com aquela situação e pergunta à médica se ela poderia orar por ela. De repente, o aspecto daquela mulher mudou. Ela disse que era cristã e que gostaria muito da oração, revelando também que estava de plantão a quase dois dias (quase dois dias sem ir pra casa). Ao final da oração, ela disse: “aquilo tinha sido de Deus”.
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Ali, percebo que fui esse artifício narrativo de uma história bem maior que a minha. Em nenhum momento, no causo que relatei, fui um agente ativo, mas passivo. Não disse nada de importante. Só estava ali doente. Apenas sendo um fato que acabou unindo duas pessoas que precisavam se encontrar para que houvesse a sinalização visível do cuidado de Deus por cada um de seus filhos e filhas. Chegando aqui, ruminando sobre o ocorrido, remeto-me à sensação da “não presença de Deus” no cotidiano e, de repente, epifania.
A Epifania da presença divina
Na trilha da vida, às vezes, somos como os discípulos no caminho de Emaús (Lc 24.13–35), totalmente abarcados pelas incertezas dos planos virem ao chão, seguindo o trajeto abatidos pelas dúvidas. Entretanto, de vez em quando, Deus vem até nós. Talvez, não perceberemos de primeira, assim como eu não entendi naquele momento da minha história pessoal, porém, olhando para trás diremos: “não queimava o coração quando ele nos falava pelo caminho?” (Lc 24.32). Por isso, ainda que a caminhada seja difícil ao ponto de nos fazer duvidar da mão de Deus cuidadora, tenhamos em vista a paciência de Deus em nos responder aos questionamento nos revelando a sua presença como sinal de sua providência e misericórdia que culminam no destino final que é nosso Senhor encarnado.
Quando o tempo de Deus confunde o nosso
E, nesse advento, isto é, nessa espera, o anúncio da descida de Deus confunde e levanta dúvidas, porque “na perspectiva humana, Gabriel chegou atrasado à vida de Zacarias e sua mulher, pois eles já eram avançados em idade e Isabel ainda era estéril. De igual modo, parece que o anjo chegou adiantado à vida de Maria, pois ela era ainda jovem, virgem e noiva de um carpinteiro” (LOPES, 2017, p.24–25).
Essa aparente discrepância no “timing” divino, contudo, não é sem propósito. Zacarias e Isabel esperaram décadas por uma resposta de Deus. Sua paciência e fé, mesmo em meio ao silêncio, revelam que a espera é parte do processo divino para realizar algo maior do que nossas expectativas humanas. No Advento, essa mesma espera ganha nova vida: esperamos pela vinda de Cristo, relembrando que Deus age no momento perfeito, ainda que nos pareça atrasado ou adiantado.
Quiçá, os arranjos dos momentos que constróem os arcos da vida destas pessoas (e também das nossas) não estejam “humanamente” prontos. Mas para o Senhor que rege todas as coisas, esse foi o momento da “plenitude dos tempos, quando todo o cenário estava pronto e quando todas as profecias estavam cumpridas (Gl 4.4)” (LOPES, 2017, p.25). Portanto, como coadjuvantes na história divina, repousar na resposta dada à espera: Jesus Ex Machina.
Silêncio e “espera-nça”
Nos dias de Herodes, rei da Judeia, houve um sacerdote chamado Zacarias, do turno de Abias. A mulher dele era das filhas de Arão e se chamava Isabel. Ambos eram justos diante de Deus, vivendo de forma irrepreensível em todos os preceitos e mandamentos do Senhor. Eles não tinham filhos, porque Isabel era estéril, e os dois já tinham idade avançada. E aconteceu que, enquanto Zacarias exercia o sacerdócio diante de Deus na ordem do seu turno, coube-lhe por sorteio, segundo o costume sacerdotal, entrar no santuário do Senhor para queimar o incenso. Durante esse tempo, toda a multidão do povo permanecia na parte de fora, orando. E eis que apareceu a Zacarias um anjo do Senhor, em pé, à direita do altar do incenso. Ao vê-lo, Zacarias ficou assustado, e o temor se apoderou dele. O anjo, porém, lhe disse: Não tenha medo, Zacarias, porque a sua oração foi ouvida. Isabel, sua esposa, dará à luz um filho, a quem você dará o nome de João. Você ficará alegre e feliz, e muitos ficarão contentes com o nascimento dele. Pois ele será grande diante do Senhor, não beberá vinho nem bebida forte, e será cheio do Espírito Santo, já desde o ventre materno. Ele converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus. E irá adiante do Senhor no espírito e poder de Elias, para converter o coração dos pais aos filhos, converter os desobedientes à prudência dos justos e habilitar para o Senhor um povo preparado. Então Zacarias perguntou ao anjo: Como terei certeza disso? Pois eu sou velho, e a minha mulher também já tem idade avançada. O anjo respondeu: Eu sou Gabriel, que estou a serviço de Deus, e fui enviado para falar com você e lhe trazer esta boa notícia. Todavia, você ficará mudo e não poderá falar até o dia em que estas coisas vierem a acontecer, porque você não acreditou nas minhas palavras, as quais, no devido tempo, se cumprirão (Lc 1.5–20 NAA)
Já havia 400 anos do silêncio de Deus. Sem profetas, debaixo do jugo de Roma e dos usurpadores herodianos, o silêncio divino era gritante. Por isso, não é surpresa que, ao escutar a voz angelical, a dúvida de Zacarias ressoe mais alto do que a certeza. De certo modo, a sua dúvida vem de um lugar muito comum a qualquer um que, na pele, sente que o tempo de Deus não é o mesmo que o nosso. Já idoso, piedoso e “justo”, fora lembrado pelo anjo de uma oração feita por ele, aparentemente, a muito tempo. Então, como uma das consequências possíveis de se esperar, vencido pelo tempo, duvidar e esquecer. Contudo, eis uma prova da fidelidade de Deus que deve enriquecer a fé daqueles que oram e esperam: “É muito mais certo que Deus ouça a minha oração do que eu estar realmente desejando aquilo que eu estou pedindo” (P.129 do Catecismo de Heidelberg). Quantas orações já fizemos e nos esquecemos daquilo que pedimos? Por mim, posso dizer que, inúmeras. Mas, Deus, nenhuma esquece.
No coração de Deus estava a oração do jovem, agora velho, Zacarias e sua esposa Isabel por um filho. Como resposta, não apenas um filho, mas um prenúncio de que o próprio Filho de Deus também viria. E isso nos humilha. Diante dos planos de Deus, às vezes, não conseguimos ver com claridade a segurança do caminho, olhamos para nós mesmos e emulamos à nossa própria maneira as palavras do velho, “como terei certeza disso? Pois eu sou velho, e a minha mulher também já tem idade avançada”. No entanto, como falou o Eterno encarnado, “o que é impossível para os homens é possível para Deus” (Lc 18.27). Da fraqueza de idosos, Deus faria vir uma força motriz maior do que exércitos e impérios. Nele estaria uma força capaz de mudar os corações! A voz de Deus, através dele, deste filho, seria ouvida. Sua presença real seria sentida e, por este, anunciada. O silêncio divino, enfim, havia findado.
“Tempo de calar e tempo de falar…”
E, quando Deus fala, todos devem emudecer. “Cale-se diante dele toda a terra” (Hc 2.20), como disse o profeta. Até o cumprimento de sua palavra, aos que estão em dúvida, melhor é se calar e esperar porque aquilo que antes não cremos só de ouvir, pela graça de Deus, será mostrado aos nossos olhos. Silêncio diante do Senhor enquanto se espera é a melhor via. Calma, paciência e espera. Enquanto esperamos calados, podemos entender que o silêncio de Deus não é ausência, mas preparação. O tempo de calar, muitas vezes, é um momento de reflexão e aprofundamento na fé, em que somos convidados a confiar no que não vemos e a aguardar com paciência. A espera não é um vazio, mas um processo onde a alma se fortalece e se molda à vontade divina ou, como fala Marcos Almeida, “esperar é caminhar”. E quando, finalmente, Deus se revela, é como uma explosão de luz que dissolve as sombras da dúvida e do medo, trazendo consigo a certeza de Sua fidelidade. Na plenitude de Seu tempo, Ele fala, e o mundo, por fim, ouve. Tão logo, pela demonstração de sua glória, nos fará sair do silêncio da dúvida e do cansaço da espera com palavras de júbilo e alívio, dizendo:
Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, porque visitou e redimiu o seu povo, e nos suscitou plena e poderosa salvação na casa de Davi, seu servo, como havia prometido, desde a antiguidade, por boca dos seus santos profetas, para nos libertar dos nossos inimigos e das mãos de todos os que nos odeiam; para usar de misericórdia com os nossos pais e lembrar-se da sua santa aliança e do juramento que fez a nosso pai Abraão, de conceder-nos que, livres das mãos de inimigos, o adorássemos sem temor, em santidade e justiça diante dele, todos os nossos dias. (Lc 1.68–75 NAA)






