A Solidão que Clica
Bom, deixe-me puxar o velho caderno de anotações e a xícara de café já frio. A noite avança, e com ela chegam notícias que parecem escritas especialmente para as criaturas do escuro.
Quem dorme tarde tende a se viciar mais em redes sociais? A ciência, agora com sotaque britânico, responde com um “sim” solene. As universidades de Portsmouth e Surrey puseram o dedo numa ferida que muitos de nós sentimos latejar nas madrugadas.
Diz o estudo, publicado na “PLOS One”, que a solidão e a ansiedade são os condutores dessa ligação perigosa entre a vigília noturna e a dependência digital. A pesquisadora Anna-Stiina Wallinheimo foi precisa na metáfora: é um ciclo vicioso. O notívago, esse ser desencontrado do mundo, sente-se fora de sintonia. Enquanto a cidade dorme, ele está acordado, e nesse silêncio amplificado, ecoam a solidão e uma ansiedade peculiar. O smartphone, então, deixa de ser um aparelho e vira uma tábua de salvação. Um objeto primordial contra o desassossego.
Aqui, permitam-me um parêntese. Lembro-me de um trecho de “O Apanhador no Campo de Centeio”, onde Holden Caulfield diz: “Que bom quando alguém me pega na mão. É triste, mas é verdade.” O celular na madrugada é essa mão. Uma mão fria, de pixels, mas é a que se estende no escuro. O problema, apontam os pesquisadores, é que essa mão não aquece; ela amplifica o vazio.
Os números do estudo — 407 jovens entre 18 e 25 anos — confirmam o que a observação de qualquer café 24 horas ou de um fórum online à 1h da manhã já nos mostrava. A verificação compulsiva, a negligência de deveres, a ansiedade quando o aparelho some de vista… São sintomas clássicos de um mal-estar que não é sobre tecnologia, mas sobre a angústia.
Simon Evans, o outro pesquisador, acerta o alvo ao dizer que não adianta simplesmente mandar o jovem desligar o telefone. É como dizer para uma pessoa com frio que ela deve parar de tremer. A questão é: por que ela está com frio? A estratégia, defendem os estudiosos, tem de ser outra: entender as razões, oferecer apoio, criar centros que acolham essa dor específica dos que vivem à margem do horário comercial.
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Penso também no filósofo coreano Byung-Chul Han, que em “Sociedade do Cansaço” fala da violência da positividade, dessa pressão para sermos sempre produtivos e felizes. A madrugada, ironicamente, é o único horário em que essa pressão arrefece. Não há expectativas de produtividade às 3h da manhã. Só há a expectativa de si mesmo. E aí, para muitos, a rede social vira o palco onde se tenta, desesperadamente, provar que se existe.
O estudo britânico não descobriu nada que um bom cronista — ou um profissional de saúde mental atento — não soubesse. Ele apenas deu nomes e números a um fenômeno antigo: a noite é o território da alma desgarrada. E o vício não é no Instagram, no TikTok ou no X. O vício é no alívio momentâneo que eles oferecem contra o assombro de estar sozinho consigo mesmo.
A projeção final da pesquisadora Wallinheimo é quase um desejo: “Se conseguirmos ajudar os jovens a entender que o celular e as redes sociais não são a solução para a solidão ou a ansiedade — mas parte do problema –, talvez possamos começar a mudar esse cenário.” É uma esperança. Enquanto ela não se concretiza, resta-nos a crônica, o café frio e a constatação de que, para muitos, a tela azulada do celular é a única lua artificial que ilumina suas noites.
Referências Bibliográficas Implícitas no Texto:
WALLINHEIMO, Anna-Stiina; EVANS, Simon et al.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Editora Vozes, 2017.
SALINGER, J. D. O Apanhador no Campo de Centeio. Editora do Autor, 1951.










