A arte indígena em Porto Alegre: ensinos e desafios
Mostras culturais servindo como instrumento de permanência nas ruas da capital
A história e cultura dos povos originários tornam-se repertórios essenciais para discussões à medida que o consumismo e a desvinculação com a natureza vêm sendo impulsionados na atualidade. Com esses conhecimentos, analisar política, identidade e valores deixa de circundar assuntos supérfluos e começa a adentrar o âmago da questão: o ser humano é um animal que naturalmente possui fortes conexões com a natureza e a coletividade. Por isso, permear essa cultura pindorâmica é também se reconectar a si.
Há três principais etnias dos povos originários em Porto Alegre, sendo elas a Mbyá-Guarani, Kaingang e a Charrua. Cada uma interpreta a arte de formas diferentes, demonstrando que há uma pluralidade dentro do campo artístico indígena, e conhecê-la é fundamental para desconstruir estereótipos preestabelecidos.
Jerônimo Franco ou, como é chamado na língua Guarani, Vera Tupã, é professor e vice-cacique na Barra do Ribeiro, porém viaja bastante à capital por questões de trabalho. Ao ser questionado sobre a arte indígena, Jerônimo afirma que, na cidade, ela é representada predominantemente pelos povos Guaranis, e suas exposições são fruto dos desafios diários que essas comunidades enfrentam. “Muitas vezes acontece de não terem emprego, às vezes só vivem com o benefício da Bolsa Família, passam por dificuldades. Então, eles trazem algum artesanato e os vendem ali no centro de Porto Alegre”.
Uma cultura fundamental que chega às ruas da cidade por necessidade, não por apreciação. Sobre isso, o professor expõe que: “Mas é importante essa arte que tem na cidade, porque significa que a gente vive, que existe povo Guarani. É o povo que está sempre presente, mas que não tem essa visibilidade.”
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Quando foram-lhe perguntadas quais ações poderiam resultar em melhores cenários, não houve dúvida: a educação é a porta de entrada para a valorização desses povos. Ressalta que o estudo é importante tanto para indígenas, quanto para não indígenas, pois estabelece uma união de saberes. Franco retoma: “Mas é importante que a cultura não indígena respeitasse nossa cultura, esse povo originário. No caso, os Guarani, tanto Kaingang, Xokleng, Charrua. E valorizar um pouco a cultura tradicional. O povo e a cultura Guarani, se aprende praticando”, fala que evidencia uma questão fundamental, que para aprender sobre uma cultura, aulas dialogadas em um modelo colonialista não são suficientes.
Mesmo com resistência, há eventos que promovem uma interação e contemplação dessas manifestações pela capital gaúcha Atualmente, a Fundação Ecarta realiza uma nova temporada expositiva, reunindo os trabalhos de Xadalu Tupã Jekupé, Isabelle Foliatti e Vherá Mirim Sergio, mostras que interligam cosmologias indígenas e a resistência cultural.
Stela Pastore, jornalista e assessora de imprensa da Fundação Ecarta e grande apreciadora da cultura originária, mostra que a exposição, que celebra os 400 anos das missões jesuíticas-guarani, foi recebida por escolas e tem grande significado por abranger diferentes artistas. Em entrevista, Stela afirma que “esse tema me toca particularmente, me sensibiliza desde que eu era criança e eu sempre busco essa proximidade”, o que demonstra uma real absorção dessa arte por parte dos planejadores da mostra. O evento ocorrerá até dia 28 deste mês.
Além disso, vale ressaltar o Brique da Redenção, espaço democrático que semanalmente — sobretudo, em finais de semana — permite um contato direto com artistas e artes indígenas. O Brique costuma ter bancas e expositores, de maioria também Guarani, como fora supracitado por Jerônimo. Portanto, há um desfalque na representação da pluralidade indígena no centro urbano, outras etnias não recebem tantas exposições ou são sequer mencionadas.
É um tema que atravessa o campo artístico e evidencia o apagamento desses povos e suas tradições em Porto Alegre. Nutrir-se de arte indígena é reconhecer as origens do Brasil e aprimorar o senso crítico, pois deve-se sempre questionar quem tem o direito de expor na capital e quais são as manifestações artísticas que realmente ganham audiência.
Este texto foi escrito para a cadeira de Redação Jornalística, no primeiro semestre de 2026.
Por: Maria Alice Arenhaldt








