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Mariana Bortolotti

Mariana Bortolotti

Jornalista ▪ Estudante de Comércio Exterior e Relações Internacionais Falo de cultura, entretenimento, idiomas e relações humanas.

Nem Tudo Precisa Dar Dinheiro

7 min readAug 10, 2026

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Mas se der, tudo bem.

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Recentemente, eu publiquei um video compartilhando uma coisa que, para algumas pessoas, parece absurdo: eu estudo por hobby.

Não estudo pensando em passar em uma prova.
Não estudo pensando em mudar de profissão.
Não estudo pensando em adicionar mais um titulo ao currículo.
E, principalmente, não estudo para monetizar conhecimento adquirido.

Eu simplesmente gosto muito de estudar.

Eu amo descobrir como as coisas funcionam, entender os assuntos que me atraem e nunca fizeram parte da minha rotina, pesquisar uma história, aprender um novo idioma (já falo 8), ler sobre alguma coisa que despertou minha curiosidade por cinco minutos e, muita coisa me desperta curiosidade e interesse, quando percebo, estou há três horas mergulhada naquele assunto.

O meu video teve uma repercussão interessante. E, no meio das mensagens e comentários que recebi, uma me fez pensar bastante e gerou uma discussão interessante nas minhas DMs.

Uma amiga contou que tem dificuldade de fazer as coisas sem pensar no retorno financeiro. Ela também falou sobre o medo de começar algo novo, ser julgada, errar e, principalmente, sobre a ansiedade em relação ao tempo.

Ela queria começar a produzir conteúdo sobre a área dela, mas pensava que ainda precisava estudar muito mais antes de começar, precisava se especializar, saber mais, para se sentir mais preparada.

E quando ela colocou isso tudo na ponta do lápis, parecia que começar estava sempre muito distante.

Talvez esse pensamento seja muito comum para a maioria de nós porque transformamos a nossa vida em uma espécie de projeto de investimento.

"O que eu ganho com isso?" "Isso vai me ajudar profissionalmente?" "Isso pode virar conteúdo?" "Isso pode aumentar minha autoridade? Pode gerar dinheiro?"

Hoje em dia até um hobby simples precisa apresentar um plano de negócios. E é exatamente aí que mora o problema.

A obsessão por transformar tudo em retorno

Existe uma idéia bastante difundida de que precisamos aproveitar o nosso tempo da melhor maneira possível e sempre que possível fazer coisas extraordinárias e performáticas.
E "aproveitar" ganhou um novo significado: PRODUZIR.

Você tem que ler para melhorar seu repertório profissional, esqueça os romances, a ficção cientifica, o terror, a fantasia. Tem que ler um conteúdo agregador, acadêmico, didático, ler para passar o tempo? Esquece.

Sua viagem, aquela que você economizou um ao inteiro para fazer, precisa gerar conteúdo, fotos incríveis feitas por um fotografo profissional, muitos reels instagramaveis e editados profissionalmente, se não for assim, não prestou.

Se você sabe cozinhar, seu perfil pode virar um perfil gastronômico, mas tem que postar receitas nível Masterchef, comida básica não engaja e, a sua louça? tem que trocar por itens Tania Bulhões, prato de vó não dá views.

Se você gosta de fazer exercícios, seu perfil tem potencial para se tornar um projeto fitness cheio de desafios e que gere bastante gatilhos em quem acessar, desconforto alheio gera engajamento, sabia?

Vai ler um livro? precisa render um post super profundo com analise textual.

Ter um hobby hoje em dia precisa ser justificável.

Até descansar parece precisar de uma finalidade, descansar para voltar e produzir melhor. É como se tivéssemos desaprendido a fazer coisas que "não servem pra nada".

E não estou dizendo que dinheiro não importa, muito pelo contrário.

Para muita gente, inclusive, pensar no retorno financeiro não é uma escolha, é uma necessidade imediata. Há contas para pagar, famílias para sustentar, planos para realizar e uma realidade econômica que não permite que todo mundo tenha o luxo de experimentar coisas sem pensar nas consequências e retornos financeiros.

O problema é quando a lógica da sobrevivência se transforma na lógica permanente que rege sua existência e te limita. Quando começamos a acreditar que se algo não pode ser monetizado, talvez não valha a pena fazer.

E isso é muito mais profundo do que parece.

Quando tudo precisa produzir alguma coisa relevante e impactante, nós começamos a medir até a nossa curiosidade e moldamos a nossa individualidade e autenticidade com base nas referências alheias.

A ansiedade de estar atrasado

Outra parte da mensagem da minha amiga me chamou ainda mais atenção.

Ela disse que tem vontade de produzir conteúdo sobre aquilo que conhece e vive diariamente, mas sente que precisa estudar mais antes de começar.

E aqui existe uma armadilha muito contemporânea: a preparação pode parecer uma forma socialmente aceita e vista como procrastinação.

"Eu ainda não estou pronta", "Preciso estudar mais", "Preciso me especializar", "Quando eu souber o suficiente, eu começo".

Só que tem um probleminha chato nisso aí: provavelmente nunca vamos saber o suficiente, até porque tudo se renova, se atualiza, evolui, quem consegue acompanhar a evolução das coisas em tempo real e se aprimorar sobre a evolução enquanto ela acontece?

Sempre haverá alguém com mais experiência, mais títulos, alguém que começou antes de você, que leu mais livros, alguém que conhece uma pesquisa que você ainda não conhece, alguém que fala sobre aquele assunto há dez anos.

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E, se a nossa autorização para começar a depender de nos tornarmos a maior autoridade possível, talvez a gente nunca comece.

Existe uma diferença gigantesca entre não saber o suficiente para falar sobre alguma coisa e não saber tudo que existe para saber sobre alguma coisa. Ninguém precisa saber tudo.

Aliás, uma das formas mais honestas de produzir conhecimento é justamente admitir que nós estamos aprendendo também. Você pode sim compartilhar aquilo que sabe hoje sem fingir que sabe tudo.

Estude enquanto produz, mude de opinião, corrija a informação quando souber mais sobre ela, isso te permite descobrir coisas novas todos os dias, não é proibido dizer "eu não sei, mas vou pesquisar".

Você pode crescer em público. E, principalmente, pode começar antes de se sentir completamente pronto.

O tempo não está contra você

Existe também essa sensação permanente de que estamos sempre atrasados.

Aos 20, deveríamos saber o que queremos.
Aos 25, deveríamos estar construindo uma carreira.
Aos 30, deveríamos estar consolidados na carreira.
Aos 35, deveríamos ter patrimônio, nossos avós já tinham casa, carro e filhos aos 35.
Aos 40, deveríamos ter encontrado nosso propósito.

E, se decidirmos começar alguma coisa depois disso, parece que precisamos correr para compensar o tempo "perdido".

Mas perdido para quem?

Eu acho muito curioso como tratamos o tempo como se toda atividade precisasse apresentar um retorno proporcional à quantidade de anos investidos.
Se eu começo a aprender uma língua aos 35, parece que preciso justificar por que não comecei aos 15.
Se começo uma nova graduação aos 30, alguém pergunta se "não estou velha demais", ps: sempre alguém bem inconveniente.
Se eu começo a produzir conteúdo agora, penso que deveria ter começado cinco anos atrás.
Se quero mudar de área, penso em quanto tempo vou levar para chegar onde outra pessoa já está.

Talvez a pergunta mais interessante de todo esse papo seja:

E se o tempo que leva para fazer alguma coisa não for um problema?

Demorar não significa necessariamente fracassar. Aprender devagar ainda é aprender, começar "tarde" ainda é começar, mudar de idéia ainda faz parte da vida, tá?

E fazer alguma coisa durante cinco anos porque você gosta não é um desperdício só porque não virou profissão ou não deu retorno financeiro.

Nem tudo precisa virar profissão

Você pode gostar de fotografia sem precisar virar fotógrafo profissional, pode estudar história sem ter que fazer uma graduação em História, pode e deve aprender um outro idioma sem precisar fazer um intercambio e sem pretensão de viajar ou arrumar um emprego que exija esse idioma, pode cozinhar e não querer abrir um restaurante ou produzir conteúdo de receitas, pode gostar de escrever e não querer publicar um livro, pode fazer como eu e estudar abelhas sem ferrão simplesmente porque descobriu que elas são fascinantes.

Você pode aprender alguma coisa simplesmente porque uma pergunta apareceu na sua cabeça e você ficou curioso e só. Pronto.

Sem estratégia, sem nicho, sem produto, sem funil de vendas e blá blá blá, pode fazer o que quiser sem "como posso transformar isso em renda extra."

Eu sei que a idéia parece quase revolucionária justamente porque estamos acostumados a querer algo já questionando "Isso vai servir pra que?". Bom, talvez algumas coisas não precisem servir para nada. Talvez algumas coisas possam simplesmente nos servir.

Para alimentar nossa curiosidade, ocupar nossa cabeça, fazer com que conheçamos novas pessoas e costumes, para que possamos descobrir novos interesses e também nos tornarmos mais interessantes, para mudar a nossa forma de ver o mundo, ou simplesmente porque aprender é muito gostoso.

Mas e se eu quiser sim ganhar dinheiro com isso?

Tudo bem também.

Não existe nada de errado em transformar conhecimento em trabalho. Eu mesma trabalho com coisas que estudei, com coisas que aprendi e com aquilo que eu gosto.

O problema não é monetizar, o problema é acreditar que monetizar é a única forma de validar alguma coisa.

Se você quiser transformar o seu conhecimento em profissão, do it!
Estude, se especialize, construa autoridade, produza seu conteúdo, teste, erre, melhore, leve a sério e faça acontecer.
Mas não espere se tornar um especialista absoluto para começar a compartilhar aquilo que você já sabe.

E, se você não quiser transformar aquilo em profissão, tudo bem também. Você não precisa transformar toda paixão ou interesse em empreendimento.

Nem todo interesse precisa virar marca pessoal, nem todo conhecimento precisa virar produto e suas habilidades também não precisam ser colocadas à venda.

Existe uma liberdade enorme em aprender alguma coisa que não tem absolutamente nenhuma utilidade econômica imediata.

Talvez a gente precise reaprender a fazer coisas "inúteis"

Eu gosto de pensar que estudar por prazer é uma dessas pequenas rebeldias contra a idéia de que precisamos justificar cada minuto da nossa existência.

Porque existe algo muito bonito em fazer uma coisa simplesmente porque ela desperta curiosidade ou interesse. E é essa curiosidade aparentemente "inútil" que pode chegar a nos levar a lugares onde jamais pensamos ou planejamos e mesmo que isso não aconteça e, ainda assim aprender aquilo vale a pena.

Nem tudo precisa abrir uma porta, sabe?

Algumas coisas podem simplesmente tornar a sala onde estamos um pouco maior. Em um mundo obcecado por produtividade, transformar a curiosidade em motivo suficiente para começar alguma coisa talvez seja uma das poucas formas de fazer algo simplesmente porquê você quer.

Sem garantia de retorno, sem certeza de sucesso, sem saber exatamente onde aquilo vai dar. E sem precisar transformar tudo em dinheiro para provar que valeu a pena ou que você conseguiu.

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Written by Mariana Bortolotti

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