Tenho pensado em uma questão sobre o racismo que quase nunca vejo sendo discutida: será que, às vezes, na tentativa de combater o racismo, não acabamos reforçando ainda mais a divisão entre as pessoas?
Quando falamos de racismo, obviamente estamos falando de preconceito, discriminação e de todas as formas de desigualdade que podem surgir a partir disso. Mas acho que também existe outra questão importante: a forma como, ao tentar combater essas desigualdades, começamos a dividir a sociedade em grupos e a tratar esses grupos de maneiras diferentes.
Um exemplo que me faz pensar nisso são as cotas raciais.
Eu entendo perfeitamente a lógica por trás delas. Existe uma desigualdade histórica, muitas pessoas negras tiveram menos acesso a uma educação de qualidade e a outras oportunidades, e isso precisa ser discutido. Mas também acho importante separar duas coisas que muitas vezes acabam sendo tratadas como se fossem a mesma: raça e condição social.
Nem toda pessoa negra é pobre e nem toda pessoa branca é rica. Existem pessoas negras que tiveram acesso a uma excelente educação, cresceram em famílias de alta renda e tiveram muitas oportunidades. Da mesma forma, existem pessoas brancas que cresceram na pobreza, estudaram em condições muito ruins e tiveram pouquíssimo acesso a oportunidades.
Então, se o objetivo é ajudar quem teve menos oportunidades, por que o critério precisa ser a raça?
Por que não olhar diretamente para a condição daquela pessoa? Para a renda, para a educação que recebeu, para as condições em que cresceu e para as oportunidades que teve?
Dessa forma, estaríamos olhando diretamente para a desigualdade que queremos combater, independentemente da cor da pele. E, obviamente, isso também incluiria muitas pessoas negras que passaram por essas mesmas dificuldades.
E acho que isso leva a uma questão ainda mais interessante.
Existe um paradoxo quando pensamos em algumas formas de combater o racismo. Ao mesmo tempo em que queremos construir uma sociedade em que a raça não determine o valor, a capacidade ou o lugar de alguém, continuamos dando cada vez mais importância à divisão racial na forma como lidamos com certas questões.
E acho que isso pode acabar passando uma mensagem errada.
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Quando uma pessoa negra é tratada de maneira diferente por causa da sua raça, mesmo quando suas condições individuais são completamente diferentes das de outras pessoas negras, podemos acabar deixando em segundo plano aquilo que realmente influencia muitas das desigualdades que queremos combater: as oportunidades que cada pessoa teve ao longo da vida.
E uma coisa precisa estar muito clara: uma pessoa negra não é menos inteligente, menos capaz ou menos competente por ser negra. Da mesma forma, uma pessoa branca não é mais capaz por ser branca.
Se uma pessoa teve uma educação ruim e, por causa disso, está em desvantagem, essa desigualdade precisa ser discutida. Se ela cresceu sem dinheiro, sem acesso a bons professores ou sem estrutura, tudo isso importa. Mas isso é diferente de olhar para a cor da pele e decidir que aquela pessoa precisa de uma vantagem ou proteção por causa dela.
Porque acredito que existe uma diferença enorme entre reconhecer que determinadas pessoas tiveram menos oportunidades e tratar essas pessoas como se fossem incapazes.
E não acho que pessoas negras precisem ser vistas como incapazes para que possamos combater o racismo.
Muito pelo contrário. Acho que combater o racismo deveria caminhar justamente para o momento em que a cor da pele deixe de ser algo que determine o que uma pessoa pode ou não fazer.
E é por isso que acho esse assunto tão contraditório.
Porque talvez, na tentativa de combater uma divisão, estejamos, em alguns casos, reforçando essa mesma divisão.
Queremos uma sociedade em que as pessoas sejam vistas como iguais, mas continuamos lembrando o tempo inteiro que elas pertencem a grupos diferentes.
E, ao meu ver, a pergunta deveria ser: como combatemos as desigualdades que realmente existem sem fazer com que essas diferenças sejam aquilo que define as pessoas?
Talvez esse seja justamente um dos grandes desafios no combate ao racismo.
Porque, no final, uma pessoa negra continua sendo uma pessoa. Uma pessoa branca continua sendo uma pessoa. E nenhuma das duas deveria ter sua capacidade determinada pela cor da pele.
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