eu não preciso beber o mar inteiro
[ao som da música “A balada de Tim Bernardes” a partir de 2:09, do álbum “Mil coisas invisíveis”]
Eu já escrevi mais de dez “primeiros textos” para este ano na minha cabeça, e muitos foram os lugares que ele caminhou, um pós viagem, um pré ano novo, uma lista de desejos… hoje calhou de deixar o notebook aberto pós reunião e li um dos textos que mais gosto daqui Resoluções para um ano novo ou Lista de desejos, o primeiro de 2025 e ele fala justamente sobre o que eu esperava para o ano, o que desejava me permitir, pela primeira vez falei sobre vulnerabilidade, e ao final eu listei algumas coisas que desejava de fato fazer mais, será que eu consegui?
- viajar mais (saí 4 vezes do estado, isso é bem mais do que qualquer outro ano);
- marcar uma massagem relaxante (ganhei uma baita massagem relaxante de presente no dia do meu aniversário);
- fazer as unhas com frequência (fiz, em casa e em horários de almoço no trabalho);
- marcar todas as consultas que não marquei ano passado (não…não mesmo. Na verdade passei em consultas mas no sufoco);
- perder o medo e pintar o cabelo (descobri que gosto da cor dele bem pretinho, e ousei na cor da trança quando fiz);
- guardar dinheiro (não mesmo, quero melhorar nisso);
- beber mais água (em dezembro pelo menos eu tive a consciência que sim, nos outros meses só entrava como meta semanal — mas houve um empenho);
- encontrar uma forma de mexer o corpo (escolhi fazer alguns trajetos caminhando e fiz poucas mas ainda assim fiz, aulas de dança);
- ter momentos de qualidade com o Zeca (acredito que sim, passeamos mais juntos e tivemos momentos de confidências);
- me inscrever num curso (me inscrevi e deu super errado);
- ser feliz (vivi momentos de intensa alegria, e alguns de uma tristeza dolorida e solitária…mas essa é a vida, não é?).
Acho que antes de falar de um ano que começa, a gente olha pra trás e vê o ano que foi embora…e eu fiquei muito feliz que 2025 já se foi, porque o fim deste ano levou também uma versão de mim que não me cabia mais.
Não por nada, mas existem coisas que a gente pensa que precisam findar para dar espaço a um novo ciclo, deixar ele nascer da gente bem de mansinho e como já foi dito aqui, fim de dezembro e começo de janeiro traz uma esperança danada no meu coração.
Me permiti viver na vulnerabilidade emocional, e quebrei a cara, mas não escapei da vida. Melhor de tudo, eu descobri um pouco mais de mim e vi que não existia o empecilho que eu estava acreditando piamente: eu quis sim viver a dois — em alguns momentos. Por muito tempo me coloquei no lugar de alguém que não queria ou achava que não merecia viver uma história a dois, que a felicidade estava unicamente no fato de se fazer o que quiser a hora que quiser e que o ônus de uma relação era viver de negociações. Relembrei que meu corpo ainda gosta de carinho, que meu cabelo sentia falta de um cafuné, que um domingo largados na cama juntos e um reality show qualquer na tv é bom demais e que receber mensagens de “saudade” ou “lembrei de você” traz uma sensação gostosa na barriga que vai até a boca e se transforma num sorriso bobo.
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Nessa caminhada toda, eu conheci limites do que aceitar e do que não aceitar… nem que para isso eu tenha revisitado a mesma estrada mais de uma vez. Me veio a cabeça várias vezes, o trecho de um livro que diz “é preciso saber qual é a sua fome, para não comer tudo que aparece a nossa frente, e nem fazer de tudo, um banquete”.
Dessa vez eu não quis compartilhar o que eu espero desse ano, ou o que desejo. Quero guardar para mim as impressões do que vem por aí, do que eu desejo em alguém ou na vida, o que eu espero que o ano me traga de presente, não quero deixar exposto como forma de manual como desejo me apaixonar, não quero dessa vez — ou nesse texto — minha pele assim tão nua. Essa lista ficou guardada num caderno de desabafos, feita a mão num momento em que eu estava bem chateada e justo no dia da virada. A sensação de que eu tinha que virar a chavinha antes da meia noite só me deixou mais brava, então acredito que alguma vontade ou meta ficou de fora daquele papel. E tudo bem, ainda assim ela estará latente em mim.
Fiz uma viagem em dezembro que me fez pensar e mudar meu ritmo e o ritmo das coisas. Voltei devagar, acredito que ainda estou voltando.
Percebi que existem coisas maiores — muito maiores — do que a importância que a gente dá no dia a dia para picuinhas, nervosos, uma resposta atravessada de alguém, uma opinião alheia ou uma urgência que nos é transferida. E quando mergulhamos nisso tudo nos encolhemos e deixamos as situações maiores do que são, as pessoas mais importantes do que são, com um lugar na nossa vida maior do que deveria de fato ter. Estar longe me fez perceber o quanto eu me apequenei em histórias para tentar caber em afetos ou em amizades que já foram faz tempo. Sair me fez bem, olhar de fora me fez bem, ficar em silêncio também — assim como antes me fez bem direcionar os incômodos para seus devidos endereços.
Essa viagem foi bem pessoal, e muitas vezes entra até no espaço de ter sido misteriosa com o conteúdo vivido. Mas ela me ensinou muito e está aqui, dentro de mim — e espero mesmo nunca perder o contato direto com esse dezembro.
Li esses dias no livro do Francisco Ramai o seguinte poema “a nostalgia/é traiçoeira:/quanto/melhor/for a/lembrança/mais dolorosa/é a saudade/que ela/causa”
Quando eu voltei para SP com metade do coração em SLZ, troquei muitas mensagens com a minha mãe na tentativa de amenizar a saudade, e ela moderna me encaminhou um post que está repercutindo até agora em mim:
“Yemanjá nos ensina: não é preciso beber o mar inteiro para saber que ele é salgado.”
Se isso não é um tapa na sua cara, eu não sei o que é haha juro!
Eu não sei se eu já compartilhei aqui, mas sou o tipo de pessoa que esgota as possibilidades que pode para não viver a sensação do “e se”: e se eu tivesse investido mais, e se eu tivesse conversado mais, e se eu tivesse deixado claro meu interesse, e se eu tivesse demonstrado… eu vou até o último para poder falar para mim mesma “bom, eu fiz de tudo, se não deu certo não foi por falta de viver/tentar/demonstrar/conversar” e isso me traz uma sensação de paz. No fundo, isso tudo pode ser uma grande cilada e um movimento muito perigoso, que cruel se esgotar também — mas isso já está sendo conversado em terapia.
Essa frase me traz o outro lado da história, será que eu preciso mesmo me esgotar para entender ou notar que algo não está caminhando bem, ou que já demonstrou que não é para estar no meu caminho?
Na realidade, essa minha versão de 2026 não quer se perder de vista, e se isso requer tirar algumas coisas da frente pra me enxergar melhor e não esquecer o caminho que a gente tá trilhando, então tudo bem. Não sei se isso tem relação em ser o ano 1 e termos encerrado o ano 9 em 2025, mas se ouvir e se olhar me parece um bom norte para caminhar em 2026.
Bom ano ;)








