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Romário Sousa

Romário Sousa

Aqui você encontrará reflexões sobre a caminhada cristã, desabafos sinceros e convites a transformação, com o desejo de ver o caráter de Cristo formando em nós.

De profetas a influenciadores: o caminho da incoerência

3 min readApr 22, 2025

A autopropaganda contradiz o espírito do ministério cristão, porque coloca o eu no centro e não Cristo. – John Stott

Houve um tempo em que se proclamava uma mensagem que incendiava corações. Falava-se de uma geração sem rosto e sem nome, uma geração escondida em Deus, separada das vitrines do mundo e das estruturas religiosas engessadas. Era a geração dos desertos, dos homens e mulheres forjados longe das luzes, que viviam para apontar o Cordeiro, como João Batista no deserto da Judeia. O chamado era claro: uma vida radical, consagrada, contracultural. Muitos foram alimentados com esse tipo de discurso. E isso os moldou.

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Mas o tempo passou, e algo mudou. E o que mais incomoda não é o fato de que mudaram – afinal, todos mudamos —, mas o modo como a mudança aconteceu: silenciosa, estratégica, conveniente. Aqueles que antes se levantavam contra os sistemas agora construíram os seus próprios. Aqueles que diziam não ter nome, agora vendem seus nomes como marcas. Aqueles que evitavam os palcos, hoje os disputam. Aqueles que atacavam o “religioso” tornaram-se os novos “donos da verdade”. Os desertos deram lugar aos estúdios. A austeridade, ao branding. E os púlpitos às câmeras.

Muito do cristianismo moderno é simplesmente um esforço de vestir a velha natureza com uma nova roupagem. Deus não está interessado em reformar a carne. Ele a condenou à morte. A.W. Tozer

Hoje, esses homens que antes se diziam contra o sistema tornaram-se o novo sistema. Suas palavras já não ecoam com a mesma urgência profética, mas com o cálculo de quem já entendeu como funciona o algoritmo. A cada novo acontecimento no mundo, há uma “palavra”. A cada nova crise, um “posicionamento”. Uma fala rápida, um corte bem editado, uma frase de efeito. Mas me pergunto: por que precisam sempre falar? Por que essa urgência em ter opinião sobre tudo? Será que o Espírito realmente sopra com tanta frequência nas notificações, ou será que o sopro vem do medo de se tornarem irrelevantes?

A palavra do pregador deve vir do silêncio, não do ruído da popularidade. Onde a Palavra de Deus é anunciada com autenticidade, ali está o silêncio reverente da obediência. Dietrich Bonhoeffer

O que outrora se dizia fruto de zelo, hoje soa mais como ambição. A necessidade constante de ensinar, de expor, de se manifestar, pode revelar menos um dom e mais um vício: o vício de ser ouvido. E esse talvez seja o mais sutil e perigoso dos vícios ministeriais – aquele que se esconde por trás de palavras bonitas, mas que, no fundo, alimenta o ego e não o rebanho.

Pastores não são profissionais. Eles são testemunhas. Mas quando a vocação é capturada pelas técnicas da autopromoção e do gerenciamento de imagem, perdemos o que há de mais precioso: a autenticidade. Eugene Peterson

Não se trata aqui de desprezar quem comunica bem, ou quem foi levantado para influenciar. Mas há uma linha tênue entre ser voz profética e ser refém da própria audiência. Entre ser servo da Palavra e ser servo de si mesmo.

A desgraça do homem é nunca poder ficar em silêncio, a sós consigo mesmo. Blaise Pascal

Talvez tudo isso apenas revele o que já estava no coração desde o início: o desejo de ser conhecido, a fome por plataforma, a sede por visibilidade. Não era o sistema que incomodava, era o fato de ainda não terem um lugar nele.

É tempo de voltar ao deserto. De calar a voz por um tempo, se preciso. De lembrar que João Batista não fazia vídeos curtos. Ele apenas apontava: “Eis o Cordeiro de Deus”. E isso era suficiente.

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Written by Romário Sousa

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