O peixe e a pescadora de ilusões
Perdi as contas de quantas vezes abri a porta da minha casa pra você. Tu visitou a maior parte dos meus lares, mas me arrependo mesmo é de ter te apresentado o profundo do meu coração.
Te conheci no “Día de Los Muertos”, era novembro de 2022. Chovia muito e eu suava de ansiedade. Você nem deve lembrar, mas eu lembro. Foi ali que pela primeira vez eu abri a porta da minha casa pra você. Assim, bem rápido. “A química bateu” – mais tarde minha psicóloga explicou que na verdade o que havia batido eram os nossos traumas. Os fogos de artifício que eu senti durante o nosso primeiro beijo na verdade eram uma bandeira vermelha.
Mas não tinha como prever o futuro enquanto o gosto de sentir aquela faísca era tão bom. E tudo me levava mais pro fundo daquele oceano: ficar junto, contar os meus segredos e ouvir os seus e, principalmente, viver no mundo que eu construía pra gente morar durante o final de semana.
Ficávamos ali, presos no tempo e espaço, como se não precisássemos de mais nada. Até o domingo chegar e você ir embora.
Até não voltar mais.
Como em todos os nossos outros rompimentos, foi eu que dei um basta. Pra mim não compensava passar um fim de semana em uma fantasia perfeita e semanas em completa ansiedade, pensando que o seu próximo story poderia ser uma foto dela – la no museu que você prometeu me levar tantas vezes e nunca cumpriu.
Na nossa despedida, enquanto eu encerrava sua participação especial na minha vida, te perguntei – foi tudo uma mentira? E você prometeu que não, mas o cenário daquela ilusão já desmoronava na minha cabeça.
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No dia seguinte eu senti dor física. Foram muitas horas de choro ao telefone. E não foi só eu que chorei.
Depois disso foram dias inteiros de sofrimento, tantos que nem consegui contar. Só que hoje eu escrevo pra fazer com que esses dias parem de ser contabilizados no meu relógio.
A gente até prometeu caminhos abertos para uma amizade no futuro, mas isso foi antes de eu descobrir que tudo de bom que eu sentia com você vinha de mim mesma.
Repensei muitas vezes minhas escolhas, afinal, terrenos conhecidos e semelhantes nos magnetizam. Mas entendi que você não merece o tempo que eu perdia pensando em como era bom viver naquela mentira. Sei também que não quero mais deixar meus caminhos fechados pela ideia de alguém que não sabia me amar.
Hoje escrevo pra mim, porque eu mereço ser feliz e mereço alguém que olhe pra minha casa, que é o meu coração, com olhos gratos pela oportunidade de morar ali (e eu também mereço alguém que não me deixe insegura no dia do meu aniversário).
Desejo que seja feliz com a menina do museu e que ela não encontre o velho tu. Nem seja a nova eu na tua vida.
Vá em paz e leve todas as mentiras contadas, toda a falta de cuidado, de sabedoria e de maturidade. Acima de tudo, leve a sua falta de amor (próprio).
Não quero nunca mais navegar nos teus mares, pisciano. Agora quero terra firme.








