Meus porquês e primeiras memórias— Groningen | Week 1 e 2
Meu Medium não possui grandes pretensões. Se você é um dos meus dez seguidores, já sabe disso. Quase não “alimentei” essa rede social. Ou as ideias não vieram [o que não é verdade, pois vieram] ou não levei-as a lugar nenhum [sendo esse lugar nenhum: o papel ou um doc., word., etc.]
Não estou escrevendo propriamente uma ideia; estou só escrevendo. E sobre o que vou escrever? Sobre [1] o que me vier à cabeça e [2] sobre a minha vida em Groningen (Países Baixos, vulgo Holanda).
Por que estou aqui? Para fazer meu doutorado sanduíche (PDSE) sob a orientação do Dr. Ian Merkel, professor da University of Groningen. Obtive o “nome” dele a partir do professor Arthur Assis de Alfaix (UnB) que coordenou uma mesa no evento de Teoria da História, realizado em Goiânia, na UFG (2025), junto com o meu orientador brasileiro Ulisses do Valle. By the way, toda essa gente é inteligentíssima e já contribui com excelentes obras para a historiografia; e… (fun fact) todos falam português.
Quem está aqui comigo? Minha esposa Cecília. E, após alguns dias, por causa da igreja de Cristo espalhada pelo mundo, vieram outros, sobre os quais posso dizer que estão comigo, Wieke, Erna, Isebrand, Erick, Juras, Gera, Lindi, ‘Tinika’ e segue a lista… com aqueles, claro, que sempre estiveram conosco, e que agora continuam, só que no Brasil.
Então, sem mais delongas, pode-se perceber que isso é aquele exercício arcaico contínuo que (no meu imaginário) todas as meninas dos anos noventa e do início dos anos dois mil faziam: o diário. De um tipo nada secreto. O que isso significa? Que meu Medium está se metamorfoseando em um blog diário. Aqui vou escrever uma vez por semana sobre cada semana vivida em Groningen ou em outros cantos “das Europa”. *[Obrigado, amiga Erica Neves, pelo incentivo].
Começando atrasado: chegada em Schiphol e semana um e dois
Não se preocupe, o “começando atrasado” é uma das minhas metalinguagens. Hoje é dia 29 de outubro e faz mais de duas semanas que pousei em Schiphol Amsterdam. Quer dizer, a primeira e a segunda semana serão aqui registradas como esforço de memória.
A questão fundamental é: quanto cabe de uma semana em uma memória?
Lembro dos antecedentes. O peito doendo por deixar minhas cachorras amadas Brie e Gorgonzola. Da preocupação de dar tudo certo com a viagem, o que me causou um enjoo no trajeto de carro de Goiânia para Brasília; pior: que me fez perder a chance de um café da manhã escandaloso no Jerivá. Lembro de chegarmos cedo no aeroporto e fazermos tudo com calma. Foi uma viagem tranquila. No voo internacional, era para eu sentar no corredor, mas uma senhora em nossa fileira pediu para trocar. Confesso que fiquei arrasado. Eu comprei aquele assento. Mas não tive coragem de dizer não, de lançar dúvida sobre a minha generosidade. Aceitei a proposta. Ainda não sei se fiz certo. Uma alternativa seria chamar uma comissária de bordo. Havia uma solução simples em que ela sentava no corredor e eu também. Enfim, passou. Assisti ao filme Michael — Putz, que cara estranho, talentoso e que filme ruim de bom.
Pousamos: Amsterdam. Da janela pude ver a organização do campo. Geometria aplicada. E pensei: quanta ciência e engenharia não foram usadas aqui? A gente achando tudo lindo.
Até a imigração foi simples, nada como o previsto por mim e pelo Gemini. Que bom. Apesar de tudo correndo bem, o aperto no peito veio com a demora incalculável das malas. Os minutos passavam e, a cada mala que cruzava a esquina da esteira e não era a nossa, uma interrogação: “extraviada?”. E aí veio uma, depois a outra, depois mais uma e mais uma.
Tudo como o conforme, fomos encontrar-nos com a Wieke e a Erna. Nunca tínhamos a visto pessoalmente. Nem por vídeo, aliás. A única referência era uma foto de WhatsApp. Começamos a conjecturar qual a altura. Acertamos em cheio. Wieke e Erna são mulheres altas para o padrão brasileiro, mas altas o suficiente. Generosas tanto quanto um copo cheio transbordando. Elas pagaram dois combos do Burger King e nos levaram em uma viagem de carro safe até Groningen, no norte.
Desde quarta há duas semanas atrás até agora estamos hospedados na casa de Wieke, em um vilarejo chamado Ten Boer, a 10 km da cidade de Groningen. Curtimos cada detalhe. A praça aqui perto com o Supermercado Plus e outros empreendimentos pequenos, o formato das casinhas, a quadra e os campos de futebol. A primeira vez que vi o campo estava sozinho de bike. Que sensação a bike me traz. [Já escrevi sobre isso aqui: é uma maneira de sentir a liberdade].
Do dia 14 para o dia 15 dormimos cerca de 12h seguidas. Timeslot e um conjunto de tempos sem sono acumulados. É que chegamos cansados, mas a novidade no lado externo do carro não me deixou cochilar por um minuto que fosse nas cercas de 2h de Amsterdam até Groningen.
No dia 15, de pé, fomos com Wieke e Tinika (vizinha) até Groningen. Lá resolvemos a questão do meu BSN e da conta no banco ABN AMRO. Voilá, resolvidas as burocracias. Fácil assim por causa delas, das locais que me ajudaram. A impressão que elas me causaram foi de uma Holanda generosa, disposta e descomplicada. A imagem se mantém.
Fomos à University of Groningen, experimentamos Earball (comida tradicional, um croquete de ovo — é bom, mas não comeria espontaneamente de novo).
Em Ten Boer, comemos comida chinesa. Por sinal, há vários negócios de chineses aqui. Fora os made in china debaixo dos objetos — de quaisquer objetos ao redor do planeta.
Assim foi indo. Na casa da Wieke compartilhamos a refeição sobre a mesa, oramos e lemos um devocional juntos. Sempre.
Visitamos a igreja Goede Herderkerk, em Bedum, vilarejo-cidade em que nasceu o craque Arjen Robben. Repetimos a experiência no domingo seguinte. A igreja é bem tradicional. Cantam só hinos e salmos, só o órgão acompanha. O templo é cheio de gente, de idosos e crianças, de jovens e adultos, homens e mulheres. Me surpreendeu positivamente. O SENHOR conserva os seus. Ainda que o país seja majoritariamente ateu — como comentou comigo Ian na primeira vez que nos encontramos.
Sobre esse encontro, foi em um passeio que fiz com a minha esposa. A gente queria andar por Groningen. Almoçamos em um Mexicano. Delícia. Hoje foi em um Japonês. Delícia. A comida aqui é boa, viu? E como nota-se, tem de todas as culturas. De livraria, conhecemos a Walter’s Book. Nice.
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Nice — como usamos essa palavra. Quando mudamos de país elegemos uma palavra como um refúgio. Nice, não à toa, o apelido de nossa irmã (cunhada), foi nossa expressão segura.
O Fórum, que pela internet e pelo Google Maps impressiona, ao vivo é mais impressionante. Hoje, inclusive, usufruí de dentro. Fiquei lá para estudar [barra] participar do evento online Understanding Current Approaches of Theory and Philosophy of History e depois uma aula de inglês com meu amigo Marcos Caíque DE DEUS Almeida. [O cabra é cristão até no CPF!]
Em Groningen tem café bom, seja no Koffie Station ou no Block&Bloom. A cidade é, como dizem, um formigueiro de juventude. Bonito de ver. Amei a vibe de um centro urbano tomado pela universidade. Foi assim o Fórum hoje, todos estudando.
Nos domingos, a família de Sikkema se reúne. Depois do culto de manhã [9h30] jogamos cartas ou tabuleiro. Depois do culto da tarde [15h] jogamos de novo. Pode ser Lobisomem, pode ser ver um filme, pode ser Out of the loop. Numa despedida, em estilo brasileiro, que o tchau nunca é tchau definitivo, ensinei como jogar “Rá” [o jogo que a gente imita animais com gestos].
[Estou ficando cansado. Desculpe a desorganização textual. A atividade aqui é só digitar sem repensar. Mas pelo cansaço vamos acionar o mode bullet.]
Conhecemos Richard e AnneMik. Eles moram em uma fazenda com uma escultura de galinha na porta. Vendem ovos e iogurte. Vamos morar na antiga casa deles. A abandonada e em processo de revitalização (por nós mesmos) casa 41 de Garrelweer — aprox. 17 km de Groningen.
Vimos o mar em Delfzijl. Lá tinha uma turma treinando SkySurf. Massa demais. Poderia ser um deles, se mais atlético, se mais holandês, se mais resistente ao frio. Como é frio aqui, como o vento piora tudo e é importante a tal da jaqueta.
Ah, e como é perspicaz usar centenas de moinhos de vento para energia eólica. Porém, como a maioria das coisas modernas, de longe não é tão charmoso como os moinhos vintage da Holanda, os de moer grãos. Curiosidade para não esquecer: foi sondada para nós a possibilidade de morarmos em um, haha’.
Estou com um violão emprestado de Tinika. Que alívio poder tocar violão.
Que alívio poder falar português, de vez em quando.
O Erick, o mais novo dos três filhos de Erna e Isebrand, me levou no futebol da igreja. Caótico. Todo mundo joga. Todo mundo da igreja, novo ou velho, menino ou menina. AO MESMO TEMPO. Mas foi divertido. [Acho que honrei meu DNA de brasileiro].
Embora more em Goiás, foi aqui que visitei pela primeira vez na vida uma fazenda de vacas leiteiras. (Além disso, antes de me esquecer, vi tão de perto ovelhas. Estou entendendo mais sobre as imagens canônicas bíblicas sobre o pastor e ovelhas por causa disso.) De volta as vacas, pude entender como é a vida de um fazendeiro e até dirigi um trator. Sim, eu DIRIGI UM TRATOR da fazenda de vacas leiteiras holandesas.
Esse tanto de adjetivo. Que engraçado e lindo.A minha poesia aqui foi “O cão sem plumas” de João Cabral de Melo Neto e “Arranjos para assobio” de Manoel de Barros. As poesias fazem cócegas.
Eles não sabem o potencial que tenho no português. Quem me ouve em inglês. Quem é holandês ou da Frísia — que, caso não saiba, é uma região e tem uma língua própria considerada oficial nos Países Baixos.
Por falar nisso, me lembro de quando fui sozinho para Groningen me encontrar com Ian. Ele autografou meu livro “Termos de troca”, conversou comigo e me mostrou a universidade. Ainda assistimos a uma defesa de doutorado da Hanne. Lá rimos das formalidades dos europeus.
A pensar: nós americanos temos muito mais em comum do que imaginamos, até com os norte-americanos e com os estadunidenses.
A ocasião virou também oportunidade para conhecer os professores da universidade e do departamento de American Studies, em que vou atuar. Um dia histórico para mim como falante da língua inglesa.
Me transportando para um pouco mais no presente, não pinto bem paredes; e carregar sofás faz doer as costas. Mas sigo fazendo um bom trabalho com a limpeza da casa. E carregar sofás faz doer as costas — a lombar, precisamente; porque carrego errado, precisamente; ou porque sou fraco, precisamente.
Comer chocolate Tonny’s por 2 euros é uma maravilha. Sorvete do Plus por 2 euros vale super a pena. A feirinha de terça em Ten Boer tem um pessoal que vende frango que é delicioso. Em Groningen, em frente à Sinagoga judaica, tem uma batata frita sublime.
Ikea é uma versão gigante e sueca da Tok Stok.
Quase ia me esquecendo. Teve o Flamengo. Acordei de madrugada para assistir meu time do coração ser eliminado nos pênaltis pelos Estudiantes da Argentina. A minha análise da eliminação e de seus significados foi enviada via Zap para meu pai e amigos flamenguistas.
E teve as eleições presidenciais. Não pude dormir antes da apuração ser finalizada. E Lula venceu. Ufa…


![Camisa amarela da seleção ao lado da camisa vermelha. Ao fundo, brasileiros vestindo amarelo em uma passeata. [Imagem gerada através do Chat GPT].](https://webproxy.poorya-velaei-d67.workers.dev/https://miro.medium.com/v2/resize:fit:1358/format:webp/1*RTNqkZndmdddK9cDMXZK2Q.png)


