A semiótica da mort3 ✝️
Entre todos os jornais nacionais que acompanharam e noticiaram o sepultamento do Pelé, a Folha de São Paulo foi a que escolheu a pior imagem para ilustrar esse momento em suas redes sociais.
Com a manchete “No adeus ao Rei, multidão busca palavras para descrever a grandeza de Pelé”, a Folha decidiu que seria de bom tom utilizar uma foto do caixão de Pelé, tirada de um ângulo que mostra a bandeira do Brasil, a bandeira do Santos e (infelizmente) o rosto fúnebre do rei envolto por flores brancas e um tule.
A imagem não está errada. O Pelé de fato morreu, há um corpo sendo velado. É uma vida real. Mas a escolha da foto para ilustrar o adeus foi insensível, de mau gosto e incoerente.
Na faculdade de jornalismo aprendemos que devemos prezar pela harmonia entre manchete, notícia e imagem. Analisando o post e a matéria como profissional de comunicação, tenho alguns pontos:
A manchete usa as palavras: adeus, rei, multidão e grandeza. Nenhum desses termos me remete a pensar em uma imagem como a escolhida para ilustrar o post. Nem mesmo a palavra adeus, que fica facilmente apagada diante das palavras rei e grandeza.
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Quando falamos de reinado, de excelência, de uma pessoa que foi um marco na história da humanidade, vê-lo em um caixão com seu rosto sem vida em foco, com um fundo preto em segundo plano queima toda a emoção que a manchete propões e gera esse tipo de sensação nas pessoas:
Algumas imagens poderiam alimentar os adjetivos utilizados para expressar o quão grande o Pelé foi e sempre será. Por exemplo: imagens do craque comemorando gols, fotos com foco no seu rosto sorrindo e com uma coroa, foto somente de uma coroa, qualquer imagem que casasse bem com a manchete geraria a sensação de saudade nas pessoas e aquele nózinho de tristeza na garganta. Afinal, estamos nos despedindo do maior jogador de futebol da nossa história.
Fotografia é narrativa e, dentro de uma situação como a morte, existem muitas narrativas a serem exploradas. É aqui que chegamos às palavras multidão e adeus.
Expressar as homenagens de súditos que se despedem de sua realeza pode ser ilustrado por fotografias de cartazes, camisetas com dizeres, coroas de flores, abraços chorosos, lágrimas sendo enxugadas e narizes sendo limpos, sorrisos de dor e afeto, enfim, imagens que mostrem as pessoas que foram dizer adeus.
É necessário que, ao escolher uma imagem que ficará eternizada no feed e no site do jornal, o responsável pela aprovação do conteúdo, seja ele o editor chefe, redator, social media, design, esteja atento à sensação que a notícia passa atrelada à imagem que a ilustra. Em outras palavras, a Folha foi insensível ao escolher a foto e faltou com a semiótica.
Sacie sua curiosidade. O post da Folha está aqui.
Ah, esse post poderia ser analisado de outros aspectos como: incompatibilidade entre a imagem e o copy, falta de estratégia para engajamento e falta de comunicação entre os responsáveis pelo conteúdo.
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