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Raul Kuk

Raul Kuk

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Os 30 Anos de Appetite for Destruction

7 min readOct 27, 2018
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Eu era ainda muito novo na época do segundo Rock in Rio, mas me lembro perfeitamente da vinheta da Rede Globo, anunciando o festival. Havia um riff de guitarra que, mesmo não entendendo de música, eu já achava elétrico, frenético, sinestésico. Mas o que eu sabia do festival? Apenas os grandes nomes que eu ouvia, por acaso, quando minha irmã mais velha sintonizava alguma rádio FM: Prince, George Michael e New Kids on the Block. Artistas em que eu não prestava atenção nenhuma, a despeito de sua popularidade.

Isso mudou no dia que um amigo dele, o Roberto (já falecido), veio até nossa casa pedindo pra ela gravar dois discos de vinil em fitas k7, pra que ele pudesse ouvir no carro e no walkman. Eram os discos do Guns n’ Roses, “Lies” e o aniversariante de hoje, “Appetite for Destruction”. Como minha irmã não tinha muita afinidade com o aparelho 3x1, fiquei incumbido de fazer as cópias.

Eu escolhi gravar primeiro o disco que mais me chamou a atenção, obviamente, pela capa. Tinha algo de muito ameaçador naquele desenho fantástico. Um robô, que lembrava a versão Skynet do Lampadinha, o ajudante do Professor Pardal, havia violentado uma vendedora de brinquedos na calçada, em plena luz do dia, mas estava prestes a ser estraçalhado por uma monstruosidade orgânica saída de algum episódio de Dr Who, usando armadura e espadas no lugar dos dentes. Na contracapa, cinco cabeludos mal-encarados, obviamente bêbados demais para tocar qualquer coisa. O disco devia ser algo punk, ruim e de extremo mal gosto. Curiosamente, o disco não tinha “lado A” e “lado B”, mas “lado G” e “lado R”. Havia um motivo pra isso, que ficou claro mais tarde.

Ok, coloquei o disco e, assim que a agulha tocou o vinil, aquele mesmo riff de guitarra que a Globo usava para anunciar o Rock in Rio explodiu pelos auto-falantes. Se estavam usando aquela música para divulgar o festival, pensei, do alto de minha ingenuidade, então eles só podem ser a atração principal! Talvez valesse a pena eu colocar os fones de ouvido e acompanhar as letras das músicas, ainda que meu inglês, na época, estivesse bem longe até do básico. Mas aquela guitarra… O grito que veio em seguida…

Valia a pena tentar.

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A SELVA DE GUITARRAS
E “Welcome to the Jungle” era exatamente o que se espera de uma introdução. Um choque, uma tempestade. Nada havia me preparado praquilo. Eu conhecia um pouco de Elvis, Beatles, Stones e Creedence dos discos do meu pai, mas não apenas a violência da música, como suas variações rítmicas e o interlúdio tribal, era extremamente bem executada.

NÃO É TÃO FÁCIL
Em seguida, veio o que considero, até hoje, a música mais perigosa pra se ouvir ao volante — porque ela é rápida e faz a gente acelerar. “It’s So Easy” é uma porrada alucinante, do tipo que deixa hematomas e alguns dentes quebrados. Jamais vou entender porque ela não está na trilha sonora de Fight Club.

TREM PARA O INFERNO
Veio em seguida uma das músicas que mais me intrigou, porque sua introdução é relativamente calma. Claro, a paz durou pouco e, de repente, aquele caos cuidadosamente planejado para atingir o clímax no momento certo foi tomando conta da música. Você não percebe, mas “Nightrain” vai te levando junto com ela — e não traz de volta.

ME PEGARAM
Em “Out ta Get Me” eu já tinha sido fisgado. Apesar de alguns momentos lembrarem bastante Nightrain, ela tem solos mais explosivos em sua introdução. Nada de um milhão de notas tocadas na velocidade da luz, mas o tipo de coisa que faz você tocar um air guitar.

UM DISTINTO CAVALHEIRO
Temos, então, outra guinada na estrutura, melodia e ritmo. “Mr Brownstone” é dançante, contangiante, sem ser rápida demais. Aqui eu já havia me acostumado com os diferentes timbres de voz de Axl Rose e com a simplicidade genial dos solos de Slash, mas a bateria ainda me surpreendeu nessa música.

O PARAÍSO
Começa o dedilhado suave de uma das músicas mais icônicas da história do rock. “Essa eu conheço”, pensei. Já tinha ouvido, sei lá, no rádio ou TV, sem prestar a devida atenção. “Paradise City” resume tudo que de melhor eu tinha ouvido até ali: a bateria conduzindo a música, excelentes solos de guitarra, vocais impressionantes… Mas ela fica cada vez mais rápida e furiosa, até se tornar um massacre. Eu estava em êxtase, o coração disparado. E era apena a metade do disco.

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QUEM É ESSA GAROTA?
“My Michelle” começa, também, com um dedilhado. Mas, diferente de “Paradise City”, tinha algo de sombrio nessa música, algo ameaçador. E, de uma hora pra outra, tudo fica mais pesado, rápido e vigoroso. Eu nem sabia quem era a musa do título mas, pelo que entendi da letra, a coisa foi feia. Curiosamente, ela termina de forma positiva e até um pouco terna.

PARA PENSAR
A introdução já parece sacudir a gente e mandar levantar. “Think About You” é curta, rápida, pesada, eficiente e, mais uma vez, surpreende com belas melodias e uma letra absolutamente romântica. Uma daquelas preciosidades que acabam ficando esquecidas no meio de tantas músicas fantásticas.

MINHA DOCE GUITARRA
Chegamos, então, a uma das introduções mais grudentas da história do rock. Essa é outra música que eu já tinha ouvido sem prestar a devida atenção, o que chega a ser heresia. O que essa introdução faz é mostrar o quanto, mesmo sendo tecnicamente limitado, Slash é absurdamente criativo e competente. Não é, realmente, nenhum virtuoso, mas sabe o que fazer com os recursos que tem e nunca decepciona. De tirar a cartola.

LOUCO, AFINAL
Tomei um tapa na cara com a introdução de “You’re Crazy”, que é rápida, pesada e faz parecer que trinta hooligans estão brigando num bar esfumaçado e mal iluminado, entre garrafas quebradas e cadeiras voando. Como não gostar?

VALE TUDO
Da mesma forma que “Mr Brownstone” desacelera os batimentos e esfria os ânimos no “lado G”, agora é a vez de “Anything Goes” fazer o mesmo no “lado R” do disco. Refrão contagiante, melodia simples e, novamente, Slash fazendo mágica com as seis cordas.

DEUS SALVE A RAINHA
Se “Paradise City” é a música mais longa e fecha um lado do disco, “Rocket Queen” é igualmente longa (mais de seis minutos) e fecha o segundo lado. Aqui é a bateria e o baixo que chamam atenção, criando outra catarse musical da qual você não escapa até que… Pera, o que é isso? HÁ PESSOAS TENDO RELAÇÕES CARNAIS DURANTE A GRAVAÇÃO DA MÚSICA?! Holy shit, que banda é essa? Eles realmente levaram uma garota pro estúdio e…? *

A idéia de um “lado G”, para Guns, são músicas sobre as ruas, sobre drogas, álcool e o “estilo de vida” que eles levavam na época, morando amontoados com garotas e traficando pra sobreviver. O “lado R”, para Roses, são músicas mais românticas, com mensagens mais otimistas e positivas — tanto quanto possível.

O saldo final é o disco de estreia mais bem sucedido da história da música. Nenhum artista conseguiu um impacto tão grande ao dar o pontapé inicial, nenhuma banda demonstrou tanta força, vigor e atitude com apenas o primeiro riff de guitarra. Claro, diversos discos de estreia marcaram gerações de fãs diferentes por suas várias (e inegáveis) qualidades. Mas o que tivemos a partir daí, com o Guns n’ Roses, foi um fôlego novo que tornaria decepcionante qualquer disco posterior que eles lançassem, ou mesmo qualquer esforço em parecer badassa-motherfucker-fucking-fuck-fuck-fuck-in-your-ass. Não havia como superar aquilo, é por “Appetite for Destruction” que eles serão lembrados, são as músicas que os fãs querem ouvir, a formação que todos querem ver reunida.

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Eu ainda precisava gravar o “Lies”, mas o Roberto ia ficar esperando. Eu tinha que ouvir o Appetite mais uma vez. Dessa vez, fiz uma cópia pra mim.
O disco ficou no topo da parada da Billboard 200 e se tronou o álbum de estreia mais vendido de todos os tempos, bem como o décimo disco mais vendido dos Estados Unidos. Na verdade, chegou ao topo das paradas três vezes, impulsionado pelos singles de “Jungle”, “Paradise City” e “Sweet Child o’Mine”. Com mais de 30 milhões de cópias vendidas, é um dos discos mais vendidos da história. Apesar dos reviews divididos na época de seu lançamento, hoje é visto como um dos maiores clássicos da história do rock.

Nota: não se classifica a perfeição, sob o risco de torná-la fugaz. Apenas aceitem.

W. Axl Rose — vocais, sintetizadores, percussão
Slash — guitarras solo, base, violão, slide guitar, talkbox
Izzy Stradlin — guitarra base, solo, backing vocals, percussão
Duff “Rose” McKagan — baixo, backing vocals
Steven Adler — bateria, percussão, backing vocals

Lançado em 21 de julho de 1987
Produzido por Mike Clink

* Sim, levaram. Os gemidos que se ouve de fundo na música são de Adriana Smith, então namorada do baterista Steven Adler. Mas quem está transando com ela é o vocalista Axl Rose, e essa é a ideia que ele tem de trollar o colega de banda. Adler só descobriu quando ouviu o disco finalizado!

https://open.spotify.com/album/3I9Z1nDCL4E0cP62flcbI5

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