Furando a bolha: Frank Sinatra — Strangers in the Night (1966)
Texto e fotos de Marcelo Rissi
Furar a bolha é abandonar a zona de conforto. É explorar recantos inusuais, expondo-se a um ineditismo desafiador.
Ao conceber essa proposta, o idealizador da página Rock Show, Marcelo Magosso, confiou-me uma tarefa, em bem recebido convite. Missão dada é missão cumprida. E aqui vamos nós.
A ideia, como já nuançada em publicação anterior, é a de discorrer sobre trabalhos musicais que habitam as linhas extramuros do rock. Que contemplem, pela sua indiscutível solidez e versatilidade, virtudes gerais e atemporais, que alcancem saborosamente paladares universais, não nichados.
Após demorada reflexão, a escolha evidente definiu-se como por acaso, como um tropeção ou encontrão, num momento de distração. Passeando, há poucas semanas, pela cidade de São Paulo, num feriado, percorri os olhos pelas bancas de vendas de vinis montadas na Avenida Paulista (fechada, na ocasião, para veículos).
Olhou-me de volta, com lustroso brilho nas pupilas, o bolachão de Strangers in the Night, do saudoso e eterno Frank Sinatra. Conexão imediata, como se, disperso e soterrado entre centenas — talvez milhares –, aquele material estivesse desejosamente à minha espera. Como se berrasse por adoção.
Match! Levei-o.
Consultei Magosso, questionando-lhe previamente se o álbum atendia à proposta da coluna. À sua positiva resposta, elegi, então, a escolha para inaugurar minha participação em furando a bolha: Strangers in the Night.
Talvez as considerações sobre Frank Sinatra sejam autoexplicativas. Uma repetição de termos e conceitos já saturados por amplo conhecimento e domínio público.
Francis Albert Sinatra, artisticamente conhecido e consagrado como Frank Sinatra (1915–1998), detinha uma das vozes mais memoráveis e distintas da história da música. Com técnica de barítono lírico, o cantor era hábil em alcançar potentes notas graves, além de tons mais agudos, sempre com impressionantes controle, segurança e afinação. Seus timbres eram marcantemente corpulentos e robustos, impregnados com um inconfundível DNA prontamente reconhecível.
Com a imponência vocal que lhe era peculiar, Frank Sinatra lançou, em 1966, Strangers in the Night, um de seus maiores sucessos comerciais.
Mesclando vocal jazz com elementos pop — no contrafluxo da época –, esse radiofônico trabalho apresentou ao mundo a faixa-título. Pareada, em termos de receptividade, com outros clássicos de sua carreira, como My Way e New York New York, Strangers in the Night tornou-se hit imediato e, desde então, perdurante.
Segundo a versão oficial, a faixa foi composta por Bert Kaempfert (https://www.britannica.com/biography/Bert-Kaempfert#ref1229428), com letra de Charles Singleton e Eddie Snyder.
A narrativa é, porém, objeto de disputa e controvérsia. Afinal, extraoficialmente, há a hipótese de que a composição fora concebida por Avo Uvezian, músico libanês de origem armena. Inicialmente sob o título de Broken Guitar, o compositor teria enviado a partitura à sua editora.
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Por golpe de sorte, ou do destino, a melodia, segundo essa versão extraoficial, alcançou os tímpanos de Frank Sinatra. A faixa foi, então, eternizada em sua voz, após reformulação da letra, a pedido do próprio cantor.
A propósito, conforme apontado por Cassiano Elek Machado, editor-adjunto interino da página Ilustrada (do jornal Folha de São Paulo):
Em março de 1966, um músico libanês de origem armênia estava em sua casa em Nova York tocando piano quando percebeu que a canção que dedilhava tinha um som interessante. Avo Uvezian escreveu o tema e mandou a partitura para a editora, que normalmente providenciava letras para as suas músicas.
A canção recebeu o nome de “Broken Guitar” e poderia ser apenas uma das centenas de músicas compostas por Uvezian. Mas a música acabou chegando aos ouvidos de um rapazola de olhos azuis, que, àquela altura, já estava nas listas dos mais queridos da América.
O nome dele era Frank Sinatra, e aquela canção mudaria sua carreira. Antes, porém, Sinatra mudaria algo. Irritado com a letra da música, o cantor pediu para a gravadora providenciar um novo letrista. Três rapazes de Los Angeles se encarregaram da tarefa, e nascia assim “Strangers in the Night” (https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq23089927.htm).
De todo modo, apesar da disputa sobre a respectiva origem histórica, Strangers in the Night solidificou-se, pela prova do tempo, como um icônico e imortal clássico da carreira do vocalista.
Apesar do estrondoso sucesso, a composição não ofusca as demais faixas do álbum, recobertas pelas camadas de virtudes que tornaram tão singular a carreira musical do artista: canções acessíveis e radiofônicas, com intersecção de elementos de jazz e de pop (a exemplo de Summer Wind), sempre sob o comando da imponente voz daquele que, possivelmente, foi um dos maiores — senão o maior — cantor que já tocou a Terra.
Essa afirmação, fiel à estatura do artista, e em nada histriônica, recebeu revalidação histórica. Afinal, o tempo consagrou a genialidade artística do estadunidense com etnia ítalo-americana, cuja memória está perenizada. E, sobretudo, cuja voz ainda encanta e emociona.
Se, porém, a canção percorreu os tímpanos e alcançou o coração de seu massivo público, a positiva repercussão parece não ter tido, à época, o mesmo efeito no cantor. Afinal, diversas biografias apontam que, curiosamente, o vocalista repudiou imediatamente a melodia, recusando-se a interpretá-la.
Apesar disso, e mesmo detendo amplo poder decisório, Frank Sinatra foi dissuadido de sua recalcitrância após intervenção dos executivos do selo fonográfico Reprise (fundado pelo próprio artista).
Ilustrativamente, e conforme matéria publicada no jornal El País, essa foi a reação imediata do cantor:
“Não quero cantar isto. É uma merda.” Foi essa, segundo várias biografias, a resposta que Sinatra deu ao seu assessor Irving Weiss quando este lhe propôs interpretar Strangers in the night. Apesar da opinião negativa e da sua quase onipotente capacidade de decisão, quando os executivos da Reprise souberam que a música também havia sido oferecida ao cantor Jack Jones, convenceram Sinatra da necessidade de gravá-la antes que qualquer outro. O objetivo era, simplesmente, serem os primeiros. O que ninguém esperava, começando pelo próprio Sinatra, era que a canção se tornaria um hit global (https://brasil.elpais.com/cultura/2021-07-09/esta-musica-e-uma-merda-frank-sinatra-e-o-classico-que-ele-odiava-mas-do-qual-nunca-pode-se-livrar.html).
Polêmicas à parte — e o artista é pródigo nelas! –, Strangers in the Night pertence ao catálogo dos grandes trabalhos de Frank Sinatra. Foi, desde então, amplamente acolhido pelos braços do público, apesar do contragosto do seu intérprete.
E Strangers in the Night é um inquebrantável clássico não apenas pela sua faixa-título, mas por toda a seleção de faixas que, nivelada por cima, revalida o artista como força da natureza. E não apenas de sua época…
Ouça, então, sem moderação e sem restrições.
Boa audição.
Spotify:
https://open.spotify.com/intl-pt/album/4Qf6H33qdAhMFW17xfjBJB






