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Tainá Junqueira

Tainá Junqueira

Uma estudante de jornalismo que por vezes gosta de esboçar palavras fora do lide

Ano novo é coisa séria

4 min readJan 14, 2026
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Se tinha alguma certeza sobre a virada de ano que passaria fora do Brasil era que eu estaria de branco. Essa tradição incontestável, que descobri não ser tão incontestável assim, é coisa brasileira, é fruto da nossa cultura sincrética que levou o traje branco da umbanda para um país inteiro. O choque foi ver que essa tradição é minha e é totalmente contestável na Europa. Passar a virada de ano em Roma me mostrou não só que ninguém passava a noite de branco, como não se preocupava com o que usava, a noite nem parecia ser tão importante e às 2h da manhã todo mundo já tava na cama. O mundo caiu. Aliás, o meu mundo caiu.

Se me pedem para descrever um réveillon comum, digo logo que vai ter festa, muita gente, comida e bebida, calor e pouca roupa, praia e pé na areia, fogos de artifício no céu só meia noite, concentração total e contagem regressiva como se a vida se todos dependesse disso, beijos e abraços quando primeiro de janeiro for anunciado, música alta e dança, e claro, todos de branco. Se não totalmente de branco, uma cor muito específica que significa o que se vai atrair para o novo ano: vermelho — amor, amarelo — dinheiro, azul — paz, verde — esperança, e por aí vai. Acreditem, tem significado até para cinza ou grená. Em noite de ano novo tudo tem um porquê e tudo é intenção e energia, essa noite deus, oxalá, buda, o que mais acreditar, e o universo estão com os ouvidos atentos.

Noite de ano novo tem tiragem de carta do oráculo de sua preferência, numerologia, aposta na mega sena, calcinha escolhida a dedo, arroz com lentilha e uva meia noite, sete pulinhos no mar, leitura da previsão astrológica, tem fogueira, banho de erva, despacho, música e cantoria, tem comida boa e gente jantando junto, tem champanhe, vinho e cerveja. Tem reza, macumba, culto. Mas sobretudo, tem pedidos silenciosos quando se olha para o céu: atrás dos fogos de artifício, há estrelas que ainda brilham e nos escutam.

Mas esse ano não teve nada disso. Passar datas comemorativas em outro país é que coloca em xeque a sua nacionalidade, a sua ancestralidade e as suas tradições. E as tradições são parte importante de quem somos, se não a mais importante. Entender o que é inegociável para si é entender a si mesmo. Para mim é inegociável passar ano novo de branco, e essa é uma das poucas certezas que tenho e do que eu sou.

Nossas maiores certezas muitas das vezes são certezas só pra gente. Quase tudo é contestável e quase nada segue uma regra universal. Isso não torna nossas certezas menores, pelo contrário. É isso que torna nossas certezas mais fortes, elas são minhas, formam quem eu sou e sigo por elas. E não há nada mais certo que nossas tradições. Os parabéns e bolo em cada aniversário, os jantares de natal em família, as missas de domingo, almoçar arroz e feijão, dançar quadrilha em festa junina, piscina, churrasco e futebol no fim de semana, pular carnaval em fevereiro, e a lista é loooonga.

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E assim como tudo isso é inegociável para grande parte dos brasileiros, para mim, ano novo é coisa séria. Porque a fé e a esperança são coisas sérias.

Ano novo é tempo de acreditar de novo e mais forte, nas pessoas, na vida e em si mesmo. É tempo em que tudo volta a ser possível e a ter um brilho diferente. É tempo de recuperar o fôlego e respirar devagar, de suspirar sem pressa, para se ter ar suficiente para se correr de novo, uma nova maratona, um ano inteiro. É tempo de lembrar os propósitos, os valores, as coisas importantes, as metas todas. É tempo de recalcular a rota, mudar o caminho ou o jeito de caminhar. Mas o mais importante, ano novo é tempo de olhar no olho e abraçar forte quem correu o ano todo contigo e vai continuar correndo. É tempo de falar que ama com intenção e verdade. É tempo em que tudo vale mais e tem mais peso, por isso falo que ano novo é coisa séria, é quando as palavras valem o dobro e as intenções o triplo. É tempo de lembrar das nossas certezas, duvidar de algumas, acreditar em novas.

Pode ser que pouca coisa mude, o caminho seja o mesmo, o jeito de caminhar também, os propósitos e os sonhos sejam os mesmos, mas a gente, a gente não é o mesmo. Não se pode nunca começar um ano novo da mesma forma que se terminou o ano velho. A gente tem sempre que renovar e inovar, buscar uma outra e melhor versão. Muda o cabelo, as roupas, o que tem lido, é um bom começo. Mas muda também a forma de pensar, de falar, de tratar os outros e a si mesmo.

Pode parecer ingenuidade, otimismo demasiado, papo bonito e furado, mas se não cultivarmos a esperança, como seguir correndo? Se abandonarmos a tradição, o que fica? Quando o mundo insiste em derrubar as confianças, a gente insiste em acreditar: em tempos melhores, mais justos, mais acolhedores. Tempos mais leves e fáceis. Acreditar no novo, na mudança, no amor e na paz. Se tem uma coisa que brasileiro carrega no sangue é a esperança — o nosso motor para dar um jeitinho e sorrir quando a coisa aperta.

Talvez a melhor tradição de herdar e carregar mundo afora por ser brasileira é a esperança. Dela (e da roupa branca) eu não abro mão.

Tenho certeza, 2026 será lindo!

Janeiro de 2026

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Written by Tainá Junqueira

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