Notas sobre a pequena e a grande política
Perdeu-se a concepção da política como arte.
Aquilo a que, em sua entrevista ao sociólogo francês Dominique Wolton, o papa Francisco se referia como a “Grande Política”, em contraposição à “pequena política” — a política partidária, ideológica, corporativista, centrada no fisiologismo.
Ou seja, a “realpolitik”, no dizer usual dos cientistas políticos.
Estamos às vésperas daquela que talvez seja a eleição mais importante da história recente brasileira. Uma eleição que determinará o rumo do país nos próximos decênios, e é triste dizer, mas necessário constatar: não foi só a concepção da política como arte que se perdeu.
Foi a própria concepção de democracia.
As pessoas parecem ter se esquecido — se é que algum dia tiveram consciência disso — de que a essência da política é a negociação.
A administração do conflito de interesses.
A capacidade de se colocar diante de alguém de quem se discorda e discutir ideias. Debater projetos. Dialogar de igual para igual.
Não partindo do pressuposto de que o outro é a encarnação do mal, que deve ser silenciado a qualquer custo ou de que as suas ideias, por serem discordantes, devem ser anatematizadas de antemão.
A arte da política pressupõe que sejamos capazes de enxergar naqueles de quem discordamos cidadãos tão bem-intencionados quanto nós nos julgamos ser; pessoas tão interessadas na justiça e no bem-estar coletivo quanto nós acreditamos que somos.
A “Grande Política”, de que falava Francisco, é a política que coloca os interesses de todos — inclusive daqueles que ainda não nasceram — acima dos interesses de uns poucos. É a política que pensa o país no longo prazo, e não tendo em vista o prazo apertado das próximas eleições.
Que está tão acima do velho cabo de guerra entre esquerda e direita que é capaz de nos levar além, construindo pontes que conectam ambos os lados do espectro ideológico, as quais permitem que os seus adeptos busquem consensos, focando mais naquilo que os une do que naquilo que os separa.
A Grande Política é a política vista como filosofia.
Como ideal.
Fala-se tanto hoje em dia sobre a derrocada das utopias que inspiraram as gerações anteriores a lutar pela transformação da ordem estabelecida, mas muito pouco se fala sobre a necessidade de resgatar essa dimensão da política: a política pensante, sonhadora, transformadora de mentalidades.
Concentramo-nos excessivamente em discutir o modo como as coisas são.
E se voltássemos também a discutir o modo como as coisas deveriam ser?
E se nos engajássemos em pensar coletivamente o futuro, em vez de apenas lamentar o atual estado de coisas?
E se, sem perder de vista as importantes lições de Maquiavel, voltássemos a nos debruçar sobre as intuições de um Aristóteles?
Assombra-me o dar-me conta de que nos tornamos incapazes de argumentar racionalmente a favor de nossas convicções políticas e de contra-argumentar, racionalmente, as opiniões daqueles que sustentam visões de mundo contrárias às nossas.
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Pergunto-me o que os antigos gregos, inventores da democracia, diriam de um debate entre os pleiteantes ao mais alto cargo da nação em que, em momento algum, os concorrentes são capazes de sustentar uma discussão produtiva sobre os problemas reais do país.
Incapazes de se encarar frente a frente, apertar a mão um do outro.
O que diriam Sólon, Clístenes e Péricles?
O que pensariam Tocqueville, Mill e Ulysses Guimarães daqueles que elegem os seus representantes com base em memes, frases de efeito, slogans vazios de campanha e minivídeos virais, e pouco se importam com a realidade tal como ela é?
A verdade, infelizmente, deixou de ser um ativo político.
Tenho a impressão de que a maioria das pessoas pura e simplesmente já não se importa mais com ela.
Vivemos na era da política dos afetos, do espetáculo, dos “fatos alternativos”.
As pessoas acreditam no que querem e interpretam o mundo a partir do seu próprio recorte subjetivo.
Como dizia Mark Twain, “é mais fácil enganar as pessoas do que convencê-las de que foram enganadas”. Será que ele falou isso profetizando o que está acontecendo no Brasil em pleno 2026?
Tente demover alguém de suas ideias profundamente arraigadas sobre política apresentando dados, evidências concretas e pesquisas científicas que corroboram o oposto daquilo em que acreditam e as chances são grandes de que você seja solenemente ignorado.
Que tempos os nossos!
Tornamo-nos reféns da pequena política. A atenção do povo parece ter sido sequestrada pela dinâmica das redes, facilmente manipulada pelos algoritmos. O senso-crítico entrou em extinção.
Como foi que chegamos a este ponto?
Lima Barreto parece ter antevisto há mais de cem anos muito daquilo pelo que estamos passando atualmente.
Ele criou a figura de Policarpo Quaresma como uma personagem patriótica deliberadamente caricata, mas a genialidade de seu romance consiste precisamente no fato de que, ao fazê-lo, o alvo de sua sátira não era tanto o cidadão brasileiro que verdadeiramente se importa com o seu país — encarnado pelo protagonista ingênuo — quanto a própria realidade política do país, que constantemente o sabota e o trata com desprezo.
É o Brasil sem filtros que transparece nas páginas de Carolina Maria de Jesus que precisa urgentemente ser debatido.
Não o Brasil do Tiktok, o Brasil dos reels.
O Brasil da propaganda eleitoral gratuita.
Que possamos como povo nos libertar das garras da pequena política e voltar a sonhar com a Grande Política.
Faço votos de que, amanhã, o povo brasileiro vote sem se deixar enganar pela miragem da polarização e pelos discursos ensaboados dos marqueteiros de plantão.
Que o povo vote pela verdade, e não pela mentira.
E que a nossa democracia — ainda que disfuncional — não esteja próxima de um triste fim.








