30 não foi a idade do sucesso
Se você cresceu assistindo o filme “De Repente 30” na Sessão da Tarde, acredito que você poderá entender um pouquinho do meu sentindo. Ou o que consegui traduzir dele através desse artigo.
Antes de tudo, você precisa saber que eu sou uma pessoa que não gosta muito do próprio aniversário. Hoje, por exemplo, é o dia do meu aniversário, e eu daria tudo para ter pulado ele no calendário. Por isso, creio que esse cenário contribua para expectativas quebradas ou a super estima delas quando os 30 chegaram. Mas, calma… a idealização de sucesso mudou nos últimos anos.
No meu texto sobre os 25, o ideal de “vida resolvida” ainda existia. E esse era o número da idade do sucesso para mim (não faço ideia do porquê, só era), não os 30, como Jenna Rink enfiou na cabeça de nós pobres millenials. Hoje, tentando elaborar um pouco sobre a resolução de uma vida, entendo que esse conceito nunca vai existir. Afinal, eu ter uma casa própria, um carro bom, um marido bonito, duas cachorrinhas lindas, conseguir fazer pilates ou academia em horário de herdeira, emagrecer e ter saúde mental está um pouco impossível. Muitos pratinhos para equilibrar, encarando a vida como uma linha reta em um gráfico que existe só na minha cabeça. Mas, vamos voltar ao conceito de sucesso.
Na minha cabeça, o sucesso vem com um peso maior do ele deve ser. Isso porque a minha autocobrança coloca algumas pedras grandes nessa mochilinha, e quando começo a pensar no meu sucesso ele vira um fardo. Antes, o sucesso para mim era: ter um emprego MUITO BOM (não bom, tem que ser MUITO BOM), ter uma vida social ativa, um leque de vários amigos, registrar momentos com naturalidade, andar de blazer no aeroporto, ter a própria agência de comunicação, viajar o mundo e ganhar MUITO DINHEIRO (não só ganhar, ganhar MUITO). Um pouco clichê? Talvez. Mas, pelo pouco que leio e converso com pessoas, é mais ou menos essa vibe que nós, 30+, construímos o conceito de sucesso.
Dito isso, passado a minha idade do sucesso que era os 25, todos os meus aniversários tiveram um peso +4, igual o UNO. Eu ficava mal, criava teorias da conspiração, tudo de ruim acontecia em abril… e eu queria sumir (ainda quero, mas de um jeito diferente). Acho que os meus divertidamentes (pessoinhas pequenas que vivem na minha cabeça) entraram em pânico. Passamos pela idade do sucesso e não chegamos perto dele, e agora? O que fazer?
Spoiler: não existe nenhum plano de ação ou coaching para solucionar essa questão. Só terapia mesmo — e em processo ainda.
Foi então que, com muitas sessões de terapia, comecei a mudar o meu conceito de sucesso e identificar, de uma forma totalmente medrosa, os pequenos feitos que eram bem sucedidos, sim, na minha vida. E quando eu faço “pequenos”, são realmente pequenos feitos. Conseguir tomar banho, quando na verdade eu queria simplesmente não tomar. Comer, quando não tinha nem vontade e prazer de colocar algo na boca. Conversar com outro ser humano presencialmente, quando eu nem queria sair de casa. Finalizar uma tarefa, quando eu nem queria ter começado. E por aí vai, a lista é gigante e eu não quero tomar o seu tempo aqui.
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Mas, ao mesmo tempo que mudanças aconteciam, o medo dos 30 ainda estava escondido. E quando ele chegou, parece que um portal se abriu e eu só queria ser engolida por ele e me entregar a esse sentimento que pesava TANTO, que quase me fazia sufocar por não conseguir traduzi-lo de uma forma clara e compreensível. Um misto de “quero que todo mundo esqueça que dia é hoje”, com “ninguém lembrou, viu como não tenho ninguém?”. Loucura? Um pouco. Mas, segundo a minha psicóloga, algo que precisa ser observado (e venho observando, sem grandes traduções até o momento).
O ano dos 30, assim como os 25, foi um completo caos. Tudo mudou, coisas que eu queria que acontecessem não aconteceram, a vida parecia rir da minha cara e falar “querida, espera só para ver o que está por vir”. E foi assim que, entre sessões de terapia, episódios de compulsão alimentar e choros enquanto lavava louça, os 30 passaram — ainda que por cima de mim.
Mas, uma coisa boa que os 30 me trouxe foi a enxergar com mais carinho as minhas tentativas e acolher com mais amor aos meus erros. A cobrança de acertar 100% das vezes ainda existe, é algo que ainda estou trabalhando e vou continuar por um bom tempo pelo o que parece. Só que agora essa cobrança está um pouco mais gasta, o que dá espaço para o meu autocuidado, para o que eu quero, para o que eu não gosto, para o que eu gostaria que fosse… e para milhares de “para que” que ainda existirão. E na avalanche que foi o ano dos 30, no finalzinho dele consegui segurar numa mísera cordinha e sair do olho do furação, parando na beirada para tomar fôlego e dar um tapa na cara para respirar e voltar a tentar passar — não sei pelo o que, mas tudo bem.
Hoje inicia o ciclo dos 31, e vários pensamentos foram desbloqueados — tal qual uma caixa de pandora. Por exemplo, nunca tinha parado para pensar nos 40, hoje pensei que estou mais perto de chegar lá. PARA QUE? Só queria mutar as vozes da minha cabeça ou pausar a criação de novas paranoias.
Apesar dos percalços e de ainda sentir um peso enorme nas costas, começo esse ciclo mais amorosa e com expectativas menores. Não quero idealizar o que acontecerá até tal data ou o que gostaria de ter até tal idade. Agora, a minha luta é para tentar equilibrar o que eu sinto com o que eu sou — porque pode não parecer, mas são coisas totalmente diferentes. E está tudo bem! O importante é ter consciência de que os pratinhos vão desequilibrar vez ou outra. Que o sucesso depende de qual lado da vida eu vou estar olhando. Que o gráfico que eu criei na minha cabeça, com o “histórico da vida”, não é real. Que eu não sei muitas coisas, mas gosto de aprender. E várias outras coisas que não quero nem pensar para não entrar na lista infinita que eu tento riscar dia após dia.
Para finalizar, adapto um parágrafo da minha reflexão dos 25.
O futuro, visto dos 31 dá medo. Não posso negar. Para os 40 é um pulo, depois só aumenta. E quando eu falo sobre o medo é algo simples, não quero complicar mais as coisas. Sinto o medo de não alcançar objetivos, medo de perder pessoas que eu amo, medo de me frustrar, medo de que tudo passe rápido demais a ponto de não poder desfrutar. Medo.
Esses medos existem em mim desde sempre. A diferença aos 31 é que consigo ver com clareza que sou capaz de passar por cada um deles, ainda que eu me quebre ou machuque profundamente. Afinal, novos ciclos virão, na vida terrena ou lá no céu, e em cada um deles uma versão atualizada surge.
Para a minha eu do futuro, espero que você celebre mais, se culpe menos e siga — ainda que tenha medo — porque no fim de tudo o sentimento é só seu, mas o fardo por ser um pouquinho mais leve. Tente sempre lembrar disso.
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