um acontecimento permanente
todos os versos até agora
foram versos da minha juventude
tolos os versos em aflições e afetos
singelas pretensões de reforma
de adorno
de abandono
e nenhum tombamento
dos anos intempestivos
de palavras firmes e gosto forte
indigeríveis no estômago
insolúveis no sangue
como um acontecimento permanente
e indesejável
antes/
eu era uma terceira pessoa
ela
fácil de ignorar
deixar que machucassem
eu
tinha um esconderijo
coberto por musgo
que exalava um cheiro úmido
de coisa viva e voz miúda
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enquanto ela era espancada
eu
assistia e no horror de vê-la morrer
cavava um abrigo mais profundo
e tão úmido que minha expiração
eram lágrimas
ela
se arrastou até lá e morreu no meu colo
[assim se volta pra casa]
virou esta estrela na minha glabela
a minha juventude em ponta de faca
no mundo que me entregaram
e eu não queria mas não disse nada
dei pra ela
depois/
eu estrelada a céu aberto confirmo
todos os versos serão sempre de juventude
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