Dieta da Selva propõe redefinir conceito de masculinidade por meio da alimentação
Movimento associa resgate de práticas alimentares naturais e ‘ancestrais’ a virilidade masculina
Giovanna Freire
Em um mundo onde os alimentos industrializados invadem a mesa da população, a chamada Dieta da Selva, impulsionada por movimentos masculinistas, busca resgatar uma alimentação tida como mais “natural” e parecida à de nossos ancestrais. Seus adeptos defendem a ideia de que, para recuperar a vitalidade física e mental, é necessário retomar hábitos antigos e rejeitar alimentos “modernos” e ultraprocessados.
Afirmações como “você está se envenenando”, “deixe de ser afeminado” e “pare de usar desodorante” são constantemente ditas por pessoas que adotam essa dieta. Essas frases refletem não só um posicionamento alimentar, mas também uma dimensão cultural que exclui comportamentos ou hábitos associados à fragilidade ou à feminilidade. E se materializam na prática por exemplo no consumo frequente de óleo de coco, água com sal, gorduras, especialmente saturadas, e leite não pasteurizado.
Seguidores da dieta também propõem a eliminação do que costumam chamar de “ração do governo”, termo pejorativo usado para descrever alimentos básicos tradicionais como arroz e feijão, que são vistos como parte de uma alimentação “fraca” e “imposta socialmente”.
Para esses movimentos — geralmente masculinistas — , mudanças alimentares específicas podem contribuir para aumentar os níveis de testosterona nos homens e contrapor tendências de “afeminamento” da sociedade contemporânea. Gorduras saturadas então se tornam essenciais para garantir força, energia e desempenho sexual, contrariando alertas médicos e padrões convencionais de saúde.
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“Com o passar do tempo, some a vontade de comer doces. Essa dieta corta todos os alimentos que acabam inflamando o corpo. Essa dieta ajuda no emagrecimento comendo carnes e frutas, além de aumentar a testosterona dos homens”, diz o estudante de Publicidade e Propaganda Lucas Campos, de 22 anos, adepto da dieta da selva.
Se, de um lado, adeptos relatam ganhos de energia, perda de peso e um sentimento de força renovada, de outro médicos e psicólogos alertam para os riscos de transformar ideologia em dieta. Segundo eles, a restrição de grupos alimentares essenciais, como leguminosas e grãos integrais, compromete o equilíbrio nutricional e pode trazer consequências graves a longo prazo.
O cardiologista Foade Suleiman aponta que a dieta da selva não tem base sólida de evidências. “A dieta da selva, que enfatiza o consumo elevado de carnes e gorduras saturadas, como manteiga e óleo de coco, merece cautela. Embora essas gorduras sejam fundamentais em algumas funções corporais, o excesso pode aumentar os níveis de colesterol LDL, conhecido como colesterol ‘ruim’, elevando o risco de doenças cardiovasculares, como infarto e AVC. É essencial equilibrar a ingestão de gorduras saturadas com fontes saudáveis, como gorduras insaturadas presentes em peixes, oleaginosas e azeite”, explica.
Estudos internacionais sustentam sua avaliação. A pesquisa PURE, que acompanhou 135 mil pessoas em 18 países, mostrou que dietas ricas em gordura saturada animal elevam o risco de eventos cardiovasculares. Já padrões alimentares como a dieta mediterrânea (que enfatiza o consumo de frutas, vegetais, azeite de oliva, peixes, grãos integrais e nozes, com moderação em carnes e laticínios) e a DASH (plano alimentar focado em aumentar o consumo de frutas, vegetais, grãos integrais, laticínios com baixo teor de gordura e proteínas magras, enquanto reduz o sal, gorduras saturadas e alimentos processados) apresentam resultados consistentes na redução da hipertensão, da inflamação e de doenças metabólicas.
Do ponto de vista psicológico, a adesão a essa dieta reflete mais do que simplesmente uma escolha alimentar. Está ligada à necessidade de seus adeptos de vincular sua identidade a atributos associados à masculinidade e criar uma espécie de “escudo” contra a sensação de fragilidade e perda de status, em um contexto onde os papéis masculinos estão em redefinição constante.
Para a psicóloga comportamental Viviane Brandão, a adesão à dieta também expressa uma necessidade simbólica. “Muitos desses homens encontram na alimentação uma forma de se vincular a atributos historicamente associados à masculinidade: força, agressividade, virilidade, libido elevada. Comer carne crua ou rejeitar grãos não é apenas uma escolha nutricional, mas um gesto performático de identidade.”
Giovanna Freire é aluna do 6° semestre de Jornalismo na FAAP








