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Além da pandemia: COVID-19 só evidenciou problemas já existentes nas comunidades indígenas

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Observe como o vírus está sendo apenas mais um dos inúmeros problemas que os indígenas enfrentam a séculos. O descaso com esses povos, envolve problemas ambientais à desrespeito em relação a sua espiritualidade

Giovana Vacare

Se já está difícil para nós que estamos cercados de informações, atendimento hospitalar, higiene básica e toda essa estrutura social, apenas reflita como está sendo para as comunidades indígenas que não possuem nem metade de tudo isso citado. Além de lutarem pela própria vida e de seu povo em toda sua existência, mesmo fora do contexto pandêmico, por conta de ações ilegais de grileiros, madeireiros e companhias de mineração que invadem seus territórios, sendo capazes de cometerem homicídios para obter tal, agora, por conta da pandemia, precisam lutar diariamente para conseguirem obter o essencial para manterem suas vidas a salvo. Povos esses, que mesmo estando aqui no Brasil, muito antes de nós, são deixados a mercê pelo governo, sendo que, o correto seria receberem auxílio, apoio e compreensão igualmente a nós.

“Em tempos de pandemia a luta e a solidariedade coletiva que reacendeu no mundo só será completa com os povos indígenas, pois a cura estará não apenas no princípio ativo, mas no ativar de nossos princípios humanos.”

Trecho da Carta Final da Assembleia Nacional da Resistência Indígena.

Foto: Ricardo Oliveira / AFP / CP

Resumo do COVID-19 nas aldeias indígenas: Em março a FUNAI (Fundação Nacional do Índio), suspendeu as cestas básicas nas aldeias, contribuindo para a desnutrição, doenças e vulnerabilidade em relação ao vírus. Ainda em março, o primeiro informe da SESAI (Secretaria Especial de Saúde Indígena), colocou os povos em risco ao recomendar isolamento domiciliar para indígenas que não necessitem de hospitalização, sendo que, nas casas compartilhadas, o vírus pode se espalhar muito mais rápido. Continuando em março, a FUNAI restringe a entrada em Terras Indígenas, mas ignora os invasores, não garantindo proteção, já que dezenas de terras indígenas sofrem com invasões de garimpeiros e madeireiros, colaborando também para a contaminação. Em abril, o primeiro contaminado, um agente indígena de saúde se infectou ao ter contato com médico que voltava de férias e já apresentava os sintomas, contando que quarentena prévia para profissionais de saúde não estava prevista em informes da SESAI. Logo após, o presidente Jair Bolsonaro sancionar a lei do auxílio emergencial sem políticas para evitar o contágio, não pensando nos povos indígenas que tinham direito ao auxílio. Muitos deles não têm acesso a internet e tiveram de se deslocar até as cidades, enfrentando filas e aglomerações para sacar o benefício. Justamente em um momento de alta dos casos. Em seguida, o secretário de saúde indígena Robson Silva, afirma que apenas indígenas aldeados serão atendidos pela SESAI. Isso exclui 324,8 mil que vivem em cidades. No dia 09/04/2020, a jovem Yanomami morre de Covid-19, sendo a terceira vítima indígena no Brasil. Sua comunidade de origem fica em rio tomado por garimpeiros no interior da Terra Indígena Yanomami. No Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami, 108 profissionais testaram positivo. Em 20/04/2020, liderança Uru-eu-wau-wau é assassinada em Rondônia, por denunciar madeireiros ilegais. Em aldeias da etnia Tikuna e Karitiana, ao menos quatro pessoas morreram por Covid-19, após serem infectadas por membros mais jovens que deixaram a cidade para receber o Auxílio Emergencial. Em maio, o desmatamento em terras indígenas aumentam exponencialmente, segundo dados do sistema Deter (INPE), as terras indígenas na Amazônia Legal já haviam sofrido 2,7 mil hectares de desmatamento provocados por invasores. Um quarto dessa destruição foi provocada por garimpeiros ilegais atuando nesses territórios. Em junho, a FUNAI recebeu mais 11 milhões de recursos emergenciais para a proteção dos indígenas, mas gastou menos da metade (39%).

Tudo citado acima é uma porcentagem dos inúmeros descasos que as comunidades indígenas sofreram nesta pandemia, chegando agora, nesse resultado:

(Atualizado em 16/09/2020–12:10 | Os números de casos confirmados e casos de óbitos apresentados representam o total de dados informados pela SESAI e apurados pelo Comitê Nacional de Vida e Memória Indígena)

A SESAI reconhece que os povos indígenas são mais vulneráveis a viroses, especialmente a infecções respiratórias como a covid-19. Segundo a secretaria, as doenças respiratórias são, ainda hoje, a principal causa de mortalidade infantil entre indígenas.

PROGRESSO…OU MELHOR DIZENDO: RETROCESSO!

Retrocesso é a melhor palavra para definir esse “progresso” ilusório em que há mortes, sofrimentos, desrespeito, desequilíbrio ambiental e violação do direito à vida humana. Não existe justiça, leis ou direitos quando se trata de alto capital envolvido.

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A residente e ativista do povo indígena Krenak — MG, Shirley Krenak, 39 anos, relata sua indignação em relação ao descaso governamental com seu povo, incluindo todas as comunidades indígenas brasileiras. Em sua aldeia em específico não houve muitos casos e até o momento, nenhum óbito. Shirley conta que, a equipe de saúde que atua dentro da comunidade soube trabalhar bem em relação a prevenção, contudo, a aldeia fica perto da cidade de Resplendor, com alta índice de contaminação. O prefeito da cidade em si e o governo, não realizaram muitos atos em relação ao covid-19, relata. Com essa falta de comprometimento, contaram com o apoio de outras instituições, com doações de medicamentos, máscaras, álcool em gel e álcool líquido, para suprir a necessidade da falta de insumos que a equipe de saúde da comunidade teve. Doações essas, resultantes da parceria do Instituto Shirley Djukurnã Krenak, com a UFJF (laboratório de farmácia), com o Grupo Solidariedade em ação, núcleo de agroecologia Lagoa-Seca/PB, e apoio do deputado Leonardo Monteiro — MG. Reuniram mais de 1.500 máscaras que foram enviadas para o povo Krenak, mais de 2.000 para o povo Maxacalis. As doações foram fartas, então, também distribuíram entre o povo Maxacalis-MG, povo Aranã-MG, povo Caju-Una-PA, Povo Guarani-RS-SC, incluindo cestas básicas. O transporte ficou por conta de cada comunidade. Além disso, o Instituto Shirley Djukurnã Krenak. fez compra de 25 testes rápidos para ajudar a equipe, porque até então os que chegavam na comunidade eram muito poucos. Compraram com doações, também.

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Foto: Assessoria de Imprensa — Museu Índia Vanuíre

A contaminação pelo covid nas aldeias indígenas está crescendo diariamente, o apoio está vindo muito da APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), junto com a força da Sônia Guajajara que está ajudando muito todas as aldeias do Brasil. Shirley comentou que estão muito preocupados com isso, porque agora com todos esses problemas em relação ao garimpo, chega muitas doenças, inclusive o covid. Além do garimpo, tem as queimadas no Pantanal, onde possuem muitos amigos, estão precisando lutar contra elas, contra o covid-19 e contra o garimpo ilegal. Há uma preocupação muito grande, até porque o governo não tem boas intenções com os povos indígenas e todo o processo de luta está ficando cada dia mais difícil com esse desgoverno que só pensa em avançar com esse “progresso” que está matando eles e suas terras de formas absurdas. Conclui-se que, no geral, a preocupação e luta maior está sendo contra o governo do país.

Krenak em si, no momento, não está tendo problemas com o garimpo ilegal, o grande problema é a falta do Rio doce, que foi morto pela companhia de mineracão Vale, BHP (BHP Billiton Limited & Plc) e Samarco. Em 5 de novembro de 2015, provocando um dos crimes de maior amplitude ambiental, matando mais de 700km de água doce, prejudicando o povo Krenak, com a falta da água doce para banhos e consumo. Adicionando também a problemática com sua espiritualidade, que ocorria em volta do rio. Todo o processo de vida deles desde 2015 se modificou por completo. Uma de suas lutas maiores é contra a mineração, lá tem muitas barragens que estão lotadas de rejeitos químicos jogados por essas empresas, principalmente, pela Vale, que vem tomando conta não só de MG, mas da Amazônia também. Todas as desgraças ambientais que vemos por todo o país tem haver com essas companhias de mineração. O minério é o que comanda esses crimes ambientais em todos os biomas do Brasil, matando fauna e flora. E corroendo a mente do ser humano que pensa em ter progresso, mas não pensa que esse progresso está tirando vidas e bem estar futuro. Shirley Krenak, questiona: “Que progresso é esse que mata, agride e deixa o ser humano sem espaço coletivo para cultivar um bem viver?”

Esse crime que fará cinco anos, não teve justiça, nada foi feito contra essas companhias de mineração. Esses bandidos continuam soltos, comenta Shirley. Como se não bastasse, em 2019, houve outro crime em Brumadinho matando mais de 200 pessoas, onde novamente a Companhia Vale está envolvida, sua barragem estourou, corroendo e matando pessoas, famílias e fazendo com que a lama chegasse ao Rio São Francisco o contaminando também. Aos poucos a ganância pelo minério está se alastrando pelo Brasil, não só em MG que a 100 anos atrás possuía uma mata atlântica extensa, que não existe mais, devido a todo esse avanço da mineração.

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Tribo considera sagrado o Rio Doce, chamado de Watu no idioma krenak (Foto: Nicoló Lanfranchi/Greenpeace

O povo Krenak luta muito, estão em muitos processos contra a Vale e estão desde 2015 em um plano emergencial onde a companhia precisa entregar água para eles, nas caixas d’água, há cinco anos seu povo não chega perto do rio, as crianças sofrem com isso, pois querem dar sequência aos processos de espiritualidade que envolvia o rio e não podem mais, nem ao menos se banhar. Muitos anciãos morreram de depressão por conta da morte do rio, por falta dos seus rituais sagrados e pela falta dos peixes que eles consumiam do rio, deixaram de comer e acabaram falecendo. Por sua cosmologia e espiritualidade eles entendem que o rio está completamente morto e longe de acesso, por mais que as empresas digam ao contrário. A química que foi despejada nele pelas companhias de minério, foi horrenda e extremamente forte. Como se não bastasse eles criaram uma empresa, a Renova, para fazer toda a sujeira para eles. A cada dia essas empresas mostram que são impiedosas no que diz respeito a humanidade.

Todos os dias eles possuem problemas com essas companhias, pois a cada dia elas querem os diminuírem cada vez mais, querem tirar o que é deles por direito. O direito à vida, reprimindo a forma de viver particular deles. Eles nunca tiveram costume de tomar banho com água tratada com cloro e a água que a Vale manda para eles, tem muito cloro, causando prejuízo nas crianças, com o aparecimento de feridas, coceiras e irritações nos olhos. Shirley cita que a luta do povo Krenak virou uma luta internacional, o mundo todo conhece, conseguiram ganhar um bom reconhecimento e respeito.

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Foto: Shirley Krenak

“Nós nunca abaixamos a cabeça para essas mineradoras e nunca vamos abaixar nossa cabeça para o mal, porque aceitar conviver com isso de uma forma, como se nada tivesse acontecido, é aceitar o mal e o povo Krenak anda 24 horas por dia de cabeça erguida, porque o mal nós nunca aceitamos, o mal que vem dessas empresas, nós nunca aceitamos e nunca vamos aceitar, enquanto tiver um Krenak vivendo nessa terra, vai ter luta contra essas empresas de mineração.” — Shirley Krenak.

Edição: Kauê Vitor

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